CINEMA
09/08/2018, 21:23

O mercado de filmes de terror brasileiro cresce, mas ainda não decola

O diretor e roteirista Paulo Biscaia Filho lançou seu primeiro longa de terror em 2010 e, desde aquela época, ouvia que o cinema do gênero estava em ascensão no Brasil e enfrentava seu melhor momento. Mas esse boom ainda não tinha sido presenciado até talvez os últimos dois anos, quando mais títulos foram lançados e, principalmente, conseguiram chegar às salas de circuito comercial do país. A questão é que, mesmo com essas importantes conquistas, os filmes de terror brasileiros ainda não lotam os cinemas. "É claro que, hoje, o cenário está realmente mudando. E ele precisa mudar.", defende o diretor. "O caminho que o Brasil está seguindo para fortalecer seu mercado é parecido com o que os Estados Unidos fez anos atrás.", explica.

Biscaia contextualiza dizendo que os filmes de horror surgiram por volta dos anos 30, onde ocupavam a categoria chamada de "filmes B" que, à época, serviam para preencher lacunas entre um filme A e outro. "Mas hoje em dia todo mundo sabe que os chamados filmes B tiveram uma importância crucial dentro do mecanismo de produção, distribuição e exibição de cinema.", lembra, de modo a deixar claro que os filmes de terror e de gêneros similares não são e nem devem ser tratados como filmes de menor importância ou qualidade inferior.

"Boas Maneiras", de Marco Dutra e Juliana Rojas, estreou no Brasil após um começo de caminhada de sucesso lá fora e premiações no próprio país, como o Festival do Rio. Com uma atriz "global" no elenco, o longa tomou diversas salas em sua estreia mas, em termos de bilheteria, não fez tanto sucesso quanto se esperava. "Apesar disso, o filme foi bem comentado, faturou prêmios e gerou discussão entre todo mundo que assistiu. No fundo, é isso que importa.", afirma Dutra. Trajetórias bem sucedidas fora do país e números baixos de bilheteria internamente são comuns para os filmes de terror nacionais. "Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos", o primeiro longa de Biscaia Filho, participou de mais de 40 festivais internacionais e recebeu diversos prêmios, incluindo o de "Melhor Filme de Horror" no Festival de Swansea (País de Gales) e no Heart of England Film Festival (Inglaterra). No Brasil, ficou em cartaz por oito semanas nos cinemas de Curitiba. "Uma das críticas feitas por aqui dizia que, se o filme não fosse falado em português, convenceria qualquer um de que era uma obra alemã ou sueca.", relembra Paulo.

É claro que tornar popular um gênero que não é tradicionalmente típico do cinema do país em questão não é tarefa fácil. Filmes de terror são especialmente produzidos nos Estados Unidos e na Europa, e produções de lá são assistidas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Talvez por conta disso, muitos diretores do gênero por aqui têm encontrado nas coproduções internacionais um caminho interessante para fortalecer suas obras. Tanto o filme mais recente de Paulo Biscaia Filho, "Virgens Acorrentadas", quanto "As Boas Maneiras", são coproduções – com os EUA e com a França, respectivamente. "Trabalhar em coprodução auxilia, mas não é necessariamente uma opção obrigatória. A questão do idioma também conta muito. Há o caso do filme russo 'A Noiva', por exemplo, que foi dublado em inglês para fazer carreira no mercado internacional. É necessário saber como trabalhar no mercado interno.", discorre Biscaia, que rodou "Virgens Acorrentadas" lá fora e está lançando o longa no Brasil falado em inglês mesmo.

Para Marco Dutra, a coprodução ajuda em vários sentidos: "Com ela, podemos misturar talentos na equipe e no elenco também, complementar a verba necessária para a produção do filme e expandir sua circulação.". Um exemplo é o próprio "As Boas Maneiras", que foi lançado na França e foi muito bem em termos de bilheteria. Muitas vezes, distribuidoras nacionais não consideram o filme comercial o suficiente, e o fato de ele ter sido bem sucedido em outros países ajuda nesse sentido. Dutra enxerga que o grande desafio nesse cenário é abordar as ferramentas de gênero que vemos em outros países nas produções locais de um jeito que faça sentido para a nossa cultura – "sem ser uma mera reprodução do que é feito lá fora.", explica.

Foi mais ou menos isso que Vicente Amorim fez em "Motorrad" (2017) – filme produzido pela Filmland Internacional e distribuído pela Warner Bros. Pictures. O thriller de ação e terror traz elementos típicos de produções de outros países – como cenas de adrenalina, velocidade, perseguição – para uma realidade brasileira. "Filmamos em locações remotas no alto da Serra da Canastra. E não estávamos fazendo um drama rural contemplativo, mas um filme de ação de alta voltagem.", afirma Amorim. O longa foi o único de um diretor brasileiro a participar do Festival de Toronto em 2017 e, lá mesmo, foi vendido para mais de 15 territórios. "Não sei se ele foi o ponto de partida para mais filmes do gênero, mas tenho certeza que ele ter sido feito e sua repercussão vão ajudar mais realizadores a enfrentarem o preconceito do 'establishment' cinematográfico brasileiro. Quanto mais filmes como ele forem feitos, melhor para o mercado e para o público.", opina o diretor.

Diante desse cenário, pode-se dizer que "misturar" gêneros é outro caminho para dar mais espaço ao terror. Enquanto "Motorrad" mistura ação, aventura e terror, "As Boas Maneiras" passeia entre o terror e o fantástico. Outro exemplo é "O Juízo", de Andrucha Waddington. A produção da Conspiração em coprodução com a Globo Filmes (que também atuou no longa de Dutra e Rojas) estreia em março de 2019 e está sendo apresentada como um "suspense psicológico", provando mais uma vez que, pelo menos em número de lançamentos, os filmes de gênero estão crescendo no Brasil.

Tradicionalmente, filmes de terror não possuem orçamentos excepcionais, mas isso não deve interferir em sua qualidade. Nesse sentido, o diretor Paulo Biscaia faz um apelo: "A narrativa precisa desse gênero e filmes de terror não devem ser feitos só porque estão na moda. Há assuntos que só podem ser abordados através desse formato, e se todo mundo resolve filmar terror porque é um gênero fácil de fazer, eles vão acabar pecando pela qualidade e atrapalhando esse caminho que vem sendo construído. Já é bem difícil conseguir a credibilidade que queremos.".

Os diretores desse nicho seguem trabalhando em prol de seu crescimento no Brasil. Biscaia Filho deve levá-lo para a TV paga com "Outros apocalipses", série inspirada na peça teatral "Marlon Brando – Whisky, Zumbis e Outros Apocalipses". Produção totalmente brasileira, ela está em fase de desenvolvimento de roteiro e já tem elenco definido. Já Marco Dutra irá repetir em breve a parceria com Juliana Rojas em um novo longa que se passará em uma casa mal-assombrada.

Para o público fã ou curioso pelo gênero que não sabe onde encontrar produções brasileiras, a Moro Filmes criou uma prateleira exclusiva de horror nacional disponibilizada através do iTunes em mais de 70 países, além das plataformas Google Play e Net Now no mercado nacional. Alguns dos títulos disponíveis são "Nervo Craniano Zero", "Morgue Story", "Mar Negro" e "Fábulas Negras".

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