Artigo
16/11/2016, 16:12

A convergência não está no set-top box

POR GABRIELA CAMPEDELLI

Ascribe, Thinkanalytics, Resonate.is e Mycelia são apenas alguns nomes de start-ups que se apostam na revolução prometida pelas blockchains na indústria de mídia. Blockchain, resumidamente, é a tecnologia de criptografia descentralizada por detrás das bitcoins, as moedas digitais, mas não se limita a elas. Para que fique mais claro, as blockchains são estruturas de dados que permitem micropagamentos de forma altamente segura e descentralizada, num contexto no qual os direitos autorais parecem ser o menor dos impeditivos à convergência.

Mesmo que a internet tenha se desenvolvido bastante, alguns dos principais desafios relacionados à monetização do conteúdo ainda permanecem. O que pode ser copiado e livremente distribuído ou compartilhado, e como os artistas são remunerados pelo material vendido, são temas que não encontraram solução satisfatória até o momento. No caso do Brasil e da música, a polêmica sempre envolve o ECAD.

Nas novas mídias, por exemplo, vários jornais começaram a colocar o conteúdo em paywalls, cobrando pelo acesso a artigos e reportagens online. Alguns exemplos envolvem micropagamentos para acesso ao conteúdo. Essa nova abordagem não envolve o uso das blockchains, mas é um sinal de interesse da indústria em encontrar um modelo comercial para os seus criadores de conteúdo, consumidores e corporações.

A maior parte do barulho feito em torno das blockchains teve como ponto principal a segurança das transações no mercado financeiro, mas seu uso vai muito além da simples troca de moedas. Isso porque as blockchains podem resolver uma série de desafios ao conectar músicos, produtores de vídeo, emissoras de televisão, autores, entre outros pontos da cadeia produtiva midiática diretamente ao consumidor final de maneira segura por meio de Smart Contracts.

Smart Contracts são capazes de se cumprir sem a intervenção de um terceiro. São escritos como programas de computador onde as regras contratuais e suas consequências podem ser automaticamente cumpridas por ambas as partes. Mas, ao contrário de um contrato tradicional, os Smart Contracts usam informações como um input, e as processam de acordo com as regras de maneira segura por meio das blockchains. Por exemplo, um vídeo pode ser reconhecido em sua totalidade com o uso de metadata e os seus direitos autorais automaticamente monetizados por microtransações.

Um exemplo de como funciona a tecnologia seria o seguinte: a plataforma reconhece que a faixa "X" foi escutada pelo consumidor "Y" e já envia o pagamento da maneira especificada no contrato: 25% para o vocalista, 25% para o compositor etc. O consumidor "Y" compartilhou a faixa "X" com "Z" e novamente aconteceu a transação, sendo que "X" deve receber uma porção porque atuou como ponto de distribuição e, assim, recebe uma parte do valor.

A administração de direitos autorais na internet já foi abordada por diversos conceitos, entre eles o Creative Commons, licenças MIT, DRM, Copyleft, entre outros. Mas nenhum desses tem o mesmo poder do Smart Contract, que associado à blockchain por meio do uso de metadata reconhece a execução de uma peça de conteúdo sonora ou em vídeo. Mas, ao contrário de um contrato tradicional, os Smart Contracts usam informações como um input e as processam de acordo com as regras.

A indústria classifica os elementos presentes em uma ficha técnica para catalogar, encontrar e vender o conteúdo. Mas, o conceito vai além disso. As legendas (ocultas ou não) também podem ser entendidas como um asset no ambiente das blockchains. No caso da programação ao vivo, ao invés de acessibilidade, já se fala em metadata (metadado) temporal.

Building the blockchain database

Um caso interessante que começa a caminhar nesse sentido é o sistema Diamond (Digitized Industry Assets Managed Optimally for Networked Distribution), da MBL, que obteve sucesso com conteúdo esportivo em diversas plataformas. O sistema consegue não só suportar a produção maciça de conteúdo, mas também pode ser usado todos os dias na rede da MBL, onde precisa ser devidamente encontrado, analisado, reeditado, licenciado e compartilhado. Com o closed caption, a busca por um vídeo fica facilitada, pois cada diálogo é indexado e fornece pistas mais rápidas sobre o conteúdo, além do que a ficha descritiva pode informar, agilizando todo o processo de edição, licenciamento, compartilhamento e SEO.

Trata-se de toda uma nova era de entretenimento monetizado, onde cada consumidor, exerce papel fundamental, criando valor para toda a rede, porque além de ser uma carteira de pagamento, também funciona como um ponto de distribuição e pode ser remunerado por isso.

Mas não só a monetização está em jogo, como toda a rede de convergência prometida pela internet. O Resonate.is, uma start-up entusiasta da tecnologia no meio musical, por exemplo, e aposta na propriedade coletiva dos direitos autorais, no uso de metadata para lançar um novo serviço de streaming de música. Nessa mesma onda está a start-up Myceleia, fundada pela cantora Imogen Heap.

Os metadados temporais, por exemplo, estão na plataforma ThinkAnalytics (http://www.thinkanalytics.com/), que fornece dados para televisão por assinatura e VOD além de possuir um mecanismo de recomendação de conteúdo com base nas informações de cada vídeo. Uma das principais evoluções da plataforma é conseguir adicionar tags ao conteúdo para criar oportunidades de publicidade contextual.

Todas essas inovações estão chegando agora à indústria e, ao ganharem mais força, vão inaugurar uma nova era na TV, música, publicidade e vídeo.

Gabriela Campedelli é jornalista, com mestrado em ciências da comunicação pela USP e MBA em marketing e mídias digitais na Europa. Atualmente é diretora de marketing.

Gabriela Campedelli é jornalista, com mestrado em ciências da comunicação pela USP e MBA em marketing e mídias digitais na Europa. Atualmente é diretora de marketing.

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