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Conteúdos nostálgicos atendem às demandas emocionais de conforto da audiência em diferentes janelas

Marcos Palmeira em "Renascer" (Foto: Globo/ Fabio Rocha)

No último mês de abril, a Globo realizou o Festival Acontece. Durante a programação do evento, foi apresentado o estudo “O Brasil e o Audiovisual”, que busca dar um norte para que o mercado pense nos movimentos do audiovisual à luz da realidade do País. O estudo completo pode ser encontrado na Plataforma Gente, espaço da Globo voltado a revelar comportamentos, histórias e tendências. 

A pesquisa, entre outros temas, elenca referências que os criadores do audiovisual devem seguir para se conectar com o público. Segundo o material, os brasileiros querem, em primeiro lugar, consumir histórias genuínas; na sequência, estão as histórias contadas a partir de novas perspectivas; as histórias catalisadas pela tecnologia; as “histórias da floresta”, isto é, que trazem o patrimônio cultural indígena para as telas; e as chamadas “histórias inovadoramente familiares”. A sociedade brasileira, ainda de acordo com o estudo, tem como principais sentimentos atualmente a esperança e ansiedade. O dado tem relação com o fato de que, em 2023, a temática “nostalgia” ganhou as redes sociais, com mais de 1,7 bilhão de manifestações digitais. Isso porque, diante das incertezas e turbulências, as pessoas querem fugir para uma época mais simples, confortável e leve. Especialistas dizem que quase todos os conteúdos variam entre o familiar que surpreende ou a supresa que é familiar. A conclusão é que, na era da instantaneidade, a perenidade de certas histórias é um grande diferencial.

“Inovar é importante para se manter relevante e conectado às necessidades do público. Porém um conteúdo pode ter diferentes abordagens e oferecer aos espectadores uma sensação de familiaridade, segurança e bem-estar emocional. Assim, trazer temas e conflitos contemporâneos em formatos e linguagens reconhecíveis é um caminho para estabelecer conexões fortes e duradouras com o público”, aponta Gabriel Jacome, diretor de gestão de conteúdo da TV Globo, em entrevista exclusiva para TELA VIVA. “Em tempos de insegurança financeira, crescimento da violência urbana e polarização social, os conteúdos audiovisuais assumem um papel também de descompressão e escapismo. Conteúdos com enredos ou personagens reconhecidos, bem como desfechos positivos, contribuem para uma sensação de alívio e esperança. A ficção funciona como um porto seguro imaginário que ajuda o espectador a lidar com a realidade. Ao oferecer uma experiência reconfortante e familiar, essas séries podem ajudar a reduzir o estresse, aumentar a sensação de segurança e promover sentimentos de felicidade e relaxamento”, completa. 

Gabriel Jacome, diretor de gestão de conteúdo da TV Globo (Foto: Reprodução)

Ao analisar as recentes produções audiovisuais que fizeram sucesso – e não só as brasileiras, mas também os lançamentos globais – essa inclinação para a nostalgia fica evidente. No último ano, alguns dos títulos de maior sucesso dos cinemas ao redor do mundo foram “Super Mario Bros.” e “Barbie”, que de certa forma remetem à infância e trazem essa sensação de histórias familiares que o público busca. “Com certeza isso reflete essa demanda por conteúdos nostálgicos. São histórias que já conhecemos e que marcaram nossas vidas. Elas atendem às demandas emocionais de conforto que temos no contexto atual, remetendo a outros tempos, e consequentemente, fazem sucesso com a audiência”, analisa Gui Cintra, sócio e roteirista na Farra

Para Jacome, da Globo, esses projetos que trabalham a memória afetiva têm potencial de criar pontes entre gerações e despertar uma conexão emocional profunda com lembranças pessoais do público. “Existem muitas formas de produzir conteúdos acolhedores e de conforto. Alguns elementos como personagens carismáticos, humor leve, trilha sonora, narrativas simples e cenários acolhedores colaboram para criar uma experiência agradável e reconfortante”, sugere. 

Remakes de novelas e séries

Na TV aberta brasileira, o momento é marcado pelos remakes de novelas, como “Pantanal”, um dos maiores sucessos da faixa das nove da TV Globo dos últimos anos, e “Renascer”, que está no ar atualmente. E para 2025, já esta confirmado o remake de “Vale Tudo”, também da TV Globo, e uma versão de “Dona Beja” (original de 1986), que marca, ao lado de “Beleza Fatal”, a aposta da Max, plataforma de streaming da Warner Bros. Discovery, nas novelas. “Os remakes e as novas versões que temos visto ganhar espaço no mercado nos últimos tempos são uma mistura entre a demanda do público de conteúdos inéditos com a vontade de retornar a histórias com conexões afetivas já criadas. Acreditamos que essas produções sejam a oportunidade de trazer de volta as velhas paixões da sociedade, adaptadas à nova visão de mundo que temos hoje”, afirma Mônica Pimentel, VP de conteúdo da WBD para o Brasil. “Um exemplo é ‘Dona Beija’, onde trazemos uma narrativa e personagens já conhecidos e queridos pelo público com um novo olhar à história devido às mudanças de comportamento da sociedade durante as últimas décadas”, completa. 

Mônica Pimentel, VP de conteúdo da WBD para o Brasil (Foto: Divulgação)

Pimentel ressalta que trata-se de uma tendência global. O grupo também está desenvolvendo outros conteúdos na América Latina com esta abordagem. No México, “Como Água para Chocolate” é uma série baseada no romance best-seller de 1989, escrito por Laura Esquivel, que também foi adaptado para um dos filmes latino-americanos de maior sucesso e cruzou fronteiras. Outra produção é “Sem Querer Querendo”, a primeira série biográfica inspirada na vida de Roberto Gomez Bolaños, também conhecido como Chespirito, o artista que criou personagens memoráveis para diversas gerações, como Chaves e Chapolín Colorado. “A série levará o público do humor à nostalgia e trará esses personagens memoráveis para novas gerações de telespectadores”, adianta a executiva. E ainda entre os próximos lançamentos globais dentro dessa temática está “Cidade de Deus: A Luta Não Para”, série que dá continuidade à história dos aclamados livro e filme homônimos. Com seis episódios, a nova produção nacional, assinada pela O2 Filmes, estreará em agosto deste ano na Max e na HBO e se passará duas décadas depois dos acontecimentos do longa. 

Novas versões e conteúdos mais antigos

Na TV paga, a tendência também se confirma. No ano passado, a Paramount lançou uma nova versão de “Beija Sapo”, programa que fez muito sucesso na emissora nos anos 2000, desta vez em uma produção exclusiva da Pluto TV em parceria com a MTV e o Tinder. Uma segunda temporada já foi anunciada. E em paralelo, programas já conhecidos do público, e não necessariamente em novas versões, também performam bem. Por exemplo: a Warner Channel voltou a exibir “Friends”, um marco da cultura pop que estreou na televisão em 1994, no último mês de maio, e a estreia posicionou o canal no Top 10 da TV por assinatura com um aumento de 93% de audiência em relação ao mesmo horário nas seis semanas anteriores. “Acreditamos que, além do grande potencial de identificação do público com o enredo e os personagens da série que levou a produção ao estrelato nos anos 1990, o fenômeno da nostalgia desempenha um papel importante no sucesso desse retorno. Muitas vezes, o entretenimento também é uma importante ferramenta de conforto e espairecimento do público. E nesses momentos os conteúdos nostálgicos e velhos conhecidos são os mais escolhidos pelo espectador”, conclui Pimentel. 

E, falando nesses “Top 10”, basta olhar para o ranking das produções mais vistas das principais plataformas de streaming para comprovar como a audiência tem gostado de rever conteúdos. No momento de publicação deste texto, a lista de filmes mais vistos da Netflix trazia “A Era do Gelo 3”, de 2009. Na Max, o filme “Click”, de 2006, figura entre os dez mais assistidos, e a série “The Big Bang Theory” (além da derivada “Young Sheldon”) sempre figura entre as séries mais assistidas na plataforma, e ainda mantém-se com excelente performance na TV por assinatura. 

Gui Cintra, sócio e roteirista na Farra (Foto: Divulgação)

Cintra, da Farra, avalia: “Sempre me perguntam como fazer o ‘novo Friends’. A resposta é que não dá. ‘Friends’ funciona e está no ‘Top 10’ porque é ‘Friends’. É a série que as pessoas já conhecem e consumiram anos atrás. Fazendo um paralelo simplório, é como se fosse uma comfort food. O nhoque da minha avó é minha comfort food porque é algo que eu conheço, comia na infância, me remete a esse período e me traz sentimentos confortáveis. Não é porque usamos a mesma farinha para criar um prato novo, por exemplo, que esse prato novo vai funcionar para mim do mesmo jeito que o nhoque da minha avó. Pelo simples fato de não ser o prato que eu comia na infância. Não dá para ter o mesmo efeito”. Ele acrescenta: “Ou seja, até dá para colocar dentro das novas obras um ou outro elemento nostálgico e conseguir efeitos positivos de público, mas nunca vai ser um novo ‘Friends’. Me parece mais interessante tentar entender por que o público consome ‘Friends’ e, daí, pensar um novo conteúdo que atenda a essa mesma demanda emocional, do que tentar ir diretamente, com muita sede ao pote, para algo criado nos ‘moldes nostálgicos’. Com isso, novas produções podem conseguir proporcionar os sentimentos que o público demanda no atual contexto, sem ser apenas pela nostalgia. Por isso, pode ser um momento interessante para olharmos mais para as comédias e realities leves, por exemplo”, destaca. 

No Globoplay, a novela “Alma Gêmea” (2005), que atualmente é reprisada na TV aberta, disparou em consumo, ultrapassou “Renascer” e se tornou a novela mais vista do streaming. No “Vale a Pena Ver de Novo”, os resultados também são positivos, com uma média de 16 pontos e 35,2% de share no PNT. No Top 10 do streaming também aparecem outras novelas antigas, como “Terra Nostra”, de 1999. 

Os caminhos dessa tendência

“É natural que os programas que estão em exibição na TV Globo, sejam eles atuais ou de acervo, sejam mais procurados para consumo sob demanda no Globoplay. É um processo de retroalimentação, uma exibição potencializa a outra. Na lista de conteúdos mais vistos no Globoplay, temos novelas inéditas ao lado de outras de acervo. Ao buscar conforto através do conteúdo audiovisual é comum a escolha por algo já conhecido. Essa conexão com alguma previsibilidade oferece ao público sentimentos de nostalgia, transportando-o de volta a um tempo familiar”, observa Jacome, que reforça ainda que o resgate de histórias clássicas é um movimento natural da indústria audiovisual. Nos últimos 40 anos, a Globo exibiu 26 remakes distribuídos nos três horários de novelas da programação da TV Globo. Ainda na década de 80, foram ao ar novas versões de “Amor com Amor se Paga”, “Roque Santeiro” e “A Gata Comeu”, por exemplo. “Boas histórias sempre vão ter espaço para serem contadas e ouvidas”, enfatiza. 

Cintra, por sua vez, conclui: “Evidentemente, como praticamente toda tendência, a nostalgia não deve durar para sempre. Mas acho difícil precisar agora quando essa tendência vai passar e outra dominar. Porém, em breve, a gente deve assistir ao surgimento de novas tendências, que atenderão a novas demandas emocionais do público em futuros novos contextos. É aí que está o ouro. E é aí que as pessoas que produzem entretenimento deveriam concentrar sua atenção e esforços: analisar sempre as necessidades emocionais da audiência na hora de produzir conteúdo com ambição mainstream”. 

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