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Especialistas veem adoção natural da IA como forma de potencializar processos criativos

Marcelo Goyanes, José Almeida, Felipe Rebelo e Danilo Lemos (Foto: Mendonça/ Divulgação Rio2C)

O primeiro dia de Rio2C trouxe uma novidade: a programação do palco Summit Bits, elaborada por Leonardo Edde e Marcelo Pedrazzi, que tem como objetivo discutir tecnologia e conteúdo e como as criações impulsionam o desenvolvimento tecnológico. Com moderação do advogado Marcelo Goyanes, especializado em propriedade intelectual, entretenimento e tecnologia, um dos principais painéis que o palco recebeu nesta terça, 4, teve como tema “Fronteiras da Inteligência Artificial”, trazendo para o debate as tecnologias emergentes e as implicações éticas e limites da interferência da IA no conteúdo criativo. 

“Faz menos de dois anos que a civilização foi atropelada pela massificação do uso da inteligência artificial generativa. É uma tecnologia que se transforma e apresenta novas questões a cada dia, que geram repercussão no mundo todo. De lá pra cá, o temor foi dando espaço para um certo conforto a partir de novas regulamentações e edições de leis. Em março deste ano, a União Europeia publicou sua primeira lei sobre o uso da inteligência artificial. O advento jurídico trouxe certa tranquilidade, especialmente em relação às preocupações com a ética, a transparência e o respeito ao trabalho. É provável que diversas leis pelo mundo sejam editadas com os mesmos princípios. No Brasil, o PL 2338/2023, que dispõe sobre o uso da inteligência artificial, traz dispositivos parecidos com o europeu e aumenta a sensação de conforto para advogados, operadores de direito e a sociedade”, contextualizou Goyanes. 

Os participantes da mesa citaram algumas das principais ferramentas de IA utilizadas atualmente, como a deep fake – que segundo Felipe Rebelo, sócio e supervisor de VFX na Bl3nd, produtora focada em efeitos visuais para publicidade, TV e cinema, tem seus prós e contras, já que pode ser utilizada para fins ilícitos ou mentirosos – durante períodos eleitorais, por exemplo – ou no sentido de alavancar as possibilidades no audiovisual. José Almeida, gerente de efeitos visuais na Globo, garante que, na emissora, a IA tem sido utilizada exclusivamente com o intuito de auxiliar a contar as histórias. “Sempre prezamos pela responsabilidade ao usar cada uma dessas possibilidades”, disse. 

Cases da Globo 

Almeida trouxe exemplos desse uso dentro dos projetos de séries e novelas da casa. A série “Justiça 2”, por exemplo, tem no elenco um ator cadeirante, e por meio das ferramentas de IA um dos episódios contou a história de como o personagem que ele interpreta acabou se tornando cadeirante. Para isso, sua imagem, feições e características foram capturadas e treinadas pela máquina, para depois serem colocadas num dublê, que não é cadeirante. “Foi um trabalho que levou de quatro a cinco meses. É um exemplo de ‘deep fake do bem’, quando a tecnologia age a favor da história. E nesse caso, tivemos o desafio específico da entrega em close e 4K”. Já na novela “Rancho Fundo”, a IA foi utilizada para momentos de flashback da história, para contar coisas do passado das personagens de Andréa Beltrão e Débora Bloch. Nesse caso, a deep fake rejuvenesceu a aparência das atrizes. 

“Tudo parte da responsabilidade, do como fazer. Na Globo, estamos olhando para isso com muito cuidado, por razões óbvias. Todas as utilizações que já fizemos têm um aparato jurídico por trás. E passamos por um processo de regularização interna, incentivando ainda o jurídico a entender novos limites”, reforçou Almeida. 

Preocupação com os postos de trabalho

No painel, ficou evidente que um dos pontos de maior polêmica em torno do assunto é a suposta eliminação de empregos e postos de trabalho que as ferramentas de inteligência artificial podem ocasionar – no caso do rejuvenescimento das atrizes, por exemplo, a contratação de talentos mais jovens já foi eliminada com a adoção da tecnologia. 

“Não é uma discussão nova, mas os contratos de Hollywood hoje trazem cláusulas que não traziam antes. Antigamente, você escaneava a imagem do ator e tinha o direito de usá-la naquele filme. Agora, com a tecnologia, pode usar em outras coisas”, disse Danilo Lemos, montador. “Toda revolução tecnológica acaba gerando novos postos de trabalho – mas, antes, tem uma fase de eliminação das pessoas que não chegam a certos lugares. Isso, na sociedade capitalista, é cruel. É importante se capacitar minimamente em certas áreas, saber operar novos motores”, completou. 

Almeida, por sua vez, focou nas possibilidades positivas que a IA proporciona, especialmente no que diz respeito a potencializar o processo criativo. “Entendemos o temor sobre os postos de trabalho, mas vemos a inteligência artificial como aceleradora do processo criativo. As imagens generativas nos permitem fazer mais, melhor e mais rápido. O impacto nos empregos acontecerá em diversos setores. Mas nossa visão interna é no potencial criativo. Estamos fazendo cada vez mais, em menos tempo, e com menos orçamento”, enfatizou. 

Novo patamar para o Brasil  

Apesar da preocupação com os empregos, Lemos ressaltou como a utilização da tecnologia permitiu que o mercado produtor brasileiro fizesse coisas que não fazia antes, especialmente por conta de orçamentos: “E esse é um processo que acontece há muito tempo. Lá atrás, quando surgiu a digitalização da captura da imagem, passamos a fazer filmes mais baratos e demos uma nova cara para o cinema brasileiro. Agora, podemos acessar coisas que, lá fora, produtores acessam há anos. No Brasil, essas ferramentas nos trazem novas oportunidades”. 

Já Rebelo pontuou que, hoje, a maioria dos softwares é gratuita ou conta com versões acessíveis para quem quer aprender. “Com tanta facilidade e volume de informação, o desafio é sabe para qual caminho ir”. O profissional concorda que a tecnologia colocou o Brasil em outro patamar, gerando uma capacidade global de competição em efeitos visuais. “Cada vez mais estúdios pequenos e médios no Brasil conseguem chegar em altos níveis de produção. O que falta é os players acreditarem mais na gente. Com orçamentos muitas vezes 50, 60% menores do que de muitos outros países conseguimos produzir igual ou até melhor”, destacou. 

Caminho natural 

Em alguns tipos de projeto, o uso da IA já é totalmente natural. Na Globo, por exemplo, 100% das séries hoje em dia contam com audiodescrição feita por vozes sintéticas. “É o uso da IA para incluir um público que, antes, não conseguia se sentir parte das histórias que contamos, ou pelo menos não tão envolvidos. Agora, o processo é automatizado e bem executado. Já recebemos boas avaliações da audiência. É um momento de transformação, que devemos aproveitar. A IA veio para contribuir com o nosso trabalho”, garantiu Almeida. 

Rebelo complementou: “Audiodescrição não é algo simples de fazer – ainda mais para produtoras pequenas ou produtores de conteúdo individuais. Vejo a IA trilhando cada vez mais o caminho que trilhou a internet, com todos passando a usar naturalmente. No futuro, as pessoas vão se entender com a tecnologia e teremos uma regulamentação. As coisas vão mudar. O começo da internet também foi assim. Devemos manter a cabeça aberta e olhar mais para o lado bom da inteligência artificial”. 

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