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Avanço da IA na cadeia criativa impacta na gestão de pessoas e esbarra na inclusão digital  

Thiago Dottori, Paulo Barcellos, Tato Bono e Hugo Gurgel (Foto: Divulgação/ Rio2C)

Mais uma vez, a inteligência artificial foi tema de painel no Rio2C 2024. Nesta quinta-feira, dia 6 de junho, profissionais da indústria audiovisual se reuniram para debater “Os efeitos da IA generativa na criação de conteúdo original”. A conversa foi moderada por Thiago Dottori, que é roteirista e presidente da Gedar (Gestão de Direitos de Autores Roteiristas). 

Os participantes da mesa – Paulo Barcellos, CEO da O2 Filmes e diretor geral da O2 Pós; Hugo Gurgel, supervisor de pós-produção e um dos diretores da Quanta; e Tato Bono, que é responsável por toda a área de produção da Play9, dirigindo a vertical Play9Action – já usam com frequência ferramentas de IA em seus trabalhos. Bono relatou que, para ela, a tecnologia tem sido útil no processo de produção especialmente na fase de pesquisa, isto é, na pré-produção: “A IA auxilia na hora de criar referências e exemplificar para o cliente uma ideia. Acho que ainda existem muitas promessas quando o assunto é IA. No momento, acredito que seja hora de identificar as melhores ferramentas para usarmos nos processos”. 

Barcellos, por sua vez, é o mais otimista com as novidades. “A IA tem tido realmente mais impacto na pesquisa pela natureza das primeiras ferramentas, que geram imagens e textos que te ajudam a montar ideias e pitchings. O que já é um impacto inicial bem grande. E, na minha vida pessoal, tenho usado muito os assistentes virtuais. Se tornaram companheiros”, brincou. Gurgel também tem usado ferramentas de IA em várias áreas, especialmente em trabalhos que costumavam ser muito manuais, como a animação de rotoscopia. A Quanta acabou de trabalhar no “Auto da Compadecida 2”, onde usou ferramentas de IA para as animações “não virarem um problema no processo”. Segundo o diretor, essa possibilidade ajudou a viabilizar o projeto. 

Preocupação com as pessoas 

Um dos pontos mais críticos quando o assunto é o avanço da inteligência artificial – e não só na indústria criativa, mas em diversos outros mercados – é se essas ferramentas acabarão eliminando postos de trabalho. Para Gurgel, um ponto essencial no processo de adoção da tecnologia é garantir que todas as pessoas sejam realocadas. “É essencial treinar os profissionais, mais do que discutir as ferramentas. Na Quanta, não vamos pensar em substituir gente. Sabemos que há departamentos que em três, quatro meses vão deixar de existir, mas vamos entender como essas pessoas podem ser realocadas em outras partes da empresa. Como a IA elimina processos mecânicos, manuais e repetitivos, acredito que podemos levar esses profissionais para áreas mais criativas. Eles usarão as ferramentas de IA para serem ainda mais criativos. O mais importante é pensar nas pessoas”, garantiu. “Queremos ter – e provocar – essa responsabilidade em outras empresas. Pouco se discute sobre a responsabilidade com as pessoas, mas temos que trazer isso à tona. As ferramentas de IA são facilitadoras, mas o que provocam na nossa gente? Não só nós como empresas, mas também o governo, e os grupos que desenvolvem propriamente essas ferramentas de IA, precisam manter esse senso de responsabilidade”, prosseguiu o diretor. 

Bono concorda que essa preocupação é fundamental e traz uma visão mais ampla do negócio. “Para mim, a IA não é só uma ferramenta, é uma evolução da qual ainda não temos ideia do impacto. É só uma pequena amostra do que está vindo. É quase como discutir o impacto das redes sociais no começo da criação da Internet, quando elas nem existiam. Ainda estamos no escuro. E tenho um pensamento de que, sim, pessoas perderão seus empregos, mas outros cargos serão necessários. Outras coisas vão surgir para cumprir esses papéis”, afirmou. 

Inclusão digital 

Mas o maior receio que a produtora traz é: o Brasil é um país que tem muitas dificuldades relacionadas à inclusão digital. “Estamos muito atrasados nesse sentido, então temo que a gente fique para trás”, alertou. 

Barcellos diz ter um lado otimista no sentido de acreditar que essas ferramentas poderão empoderar os indivíduos – e ele vê ainda um cenário em que a qualidade dos trabalhos vai aumentar muito, o que vai fazer a régua subir: “Quem usar essas ferramentas vai ter uma qualidade de entrega muito acima de quem não usar. O mais importante no momento é começar a usar e testar as ferramentas, e não se intimidar com elas”. 

E, sobre a visão de Bono, ele avaliou: “Temos essa dificuldade de inclusão digital mesmo, mas acho que será que nem a Internet, que levou bastante tempo até todo mundo ter acesso. O Chat GPT, por exemplo, pode ser baixado de graça”, mencionou. Lembrando que, segundo um estudo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), em números absolutos, o Brasil ainda tem mais de 16% da população sem acesso à Internet. 

Futuro das produções 

Os especialistas ainda enxergam um futuro de sets de filmagens com grandes equipes existindo. Para Barcellos, o que vai acontecer, pensando especificamente na produção audiovisual, é uma “explosão” da produção virtual, possivelmente diminuindo a quantidade de locações que um filme utiliza e aumentando as gravações em estúdio. “Os fundos dos cenários provavelmente serão gerados por ferramentas dessas – porque é desfocado, não precisa de tanta resolução. Mas os atores, diálogos, tudo isso continuará como a gente sempre fez. Não significa que não existirão filmes inteiros feitos por IA. Acho que sim. Mas eles terão mais cara de videoclipe. Sem plano e contra-plano. Pelas próprias limitações das ferramentas”. 

O “Auto da Compadecida 2” foi uma experiência legal nesse sentido, segundo Gurgel. “A produção virtual trouxe oportunidades. Pela primeira vez, a gente tinha as mesmas tecnologias do que as produções lá de fora. Saímos felizes por perceber que temos o know-how para fazer isso e também as ferramentas necessárias”, contou. Foi o primeiro projeto da casa que contou com 95% de produção virtual. “Estamos produzindo virtualmente há cinco anos e crescendo. Nesse momento, usamos bastante. No filme, todos os cenários são virtuais. Acho que devemos nos desafiar. Pode dar errado, mas vamos tentar. A produção virtual nos coloca num lugar muito diferente. Mas sem as pessoas e o conhecimento delas, não funciona legal. Produção virtual não é só tecnologia, é um movimento que os produtores têm que comprar”, defendeu. 

Cadeia de direitos 

Outro ponto sensível da discussão é sobre como ficam os direitos sobre as obras. Os profissionais não aprofundaram o tema. Porque para Bono, por exemplo, ainda não existe resposta para esse debate. “Acredito que o conceito de propriedade intelectual terá que mudar. O ser humano sai do centro criativo – então, segundo a lei do jeito que é hoje, a propriedade intelectual é do computador. Conceitualmente isso terá que ser repensado. Já existem leis em processo, mas acho que ainda estamos pensando na questão com a cabeça de antes da chegada da inteligência artificial, para resolver um problema que a própria inteligência artificial criou”. 

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