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Produtoras apostam em pré-licenciamento de filmes para compor financiamento e garantir distribuição futura 

André Carreira, Gilberto Toscano, Juliana Capelini e Mayra Lucas (Foto: Divulgação Rio2C)

Duas das maiores produtoras audiovisuais brasileiras, a Conspiração e a Glaz Entretenimento, representadas por Juliana Capelini, diretora executiva do núcleo Kids & Family e de longas, e Mayra Lucas, diretora criativa e CEO, respectivamente, participaram do painel “Estratégias de financiamento e novos modelos de negócio com streaming” no Rio2C nesta quinta-feira, dia 6 de junho, para falar especificamente sobre os contratos de pré-licenciamento de longas-metragens com plataformas. 

André Carreira, produtor da Camisa Listrada que moderou a mesa, contextualizou: “O modelo vigente, quando as plataformas chegaram ao Brasil, foi o de prestação de serviço, no qual os direitos patrimoniais pertencem totalmente a elas. Até hoje é um modelo que acontece em muitos casos aqui. O pré-licenciamento é um ‘novo’ modelo, que não é tão novo assim. Nele, a produtora considera esse contrato como uma fonte de financiamento e garantia de distribuição futura, além de ser detentora dos direitos patrimoniais e, portanto, pode explorar essa obra em diferentes janelas. Esses são os principais pontos positivos para o produtor. No mercado internacional, é ainda mais comum, principalmente por esse aspecto de ser fonte importante para o financiamento das obras”. 

Cases da Conspiração com diferentes plataformas 

Capelini enfatizou como o modelo de pré-licenciamento tem sido importante para a produção independente brasileira nos últimos anos: “Faz parte – e uma grande parte – da nossa forma de financiar obras para o cinema, que compõem os modelos com outras fontes de maneiras diversas”. A Conspiração vem firmando negócios desse sentido já alguns anos. A produtora citou alguns exemplos, como o filme de “D.P.A.”, uma coprodução com a Globo Filmes, com distribuição da Paris Filmes, feito ainda com recursos do edital de produção do FSA e uma pré-licença para o Globoplay. “A pré-licença se torna um percentual do orçamento. Claro que ainda precisamos de outras fontes de recurso para produzir, mas depois vamos explorar a obra no cinema, TV aberta, fechada, streaming e outras janelas”. Outro título foi “Tô de Graça – O Filme”, também uma coprodução com a Globo Filmes, com distribuição Paris Filmes e recursos do FSA, que chega aos cinemas em julho. Os dois casos são franquias da Globo que licenciou para a Conspiração produzir para o cinema. Nesse caso, a pré-licença foi para o Telecine. 

Os exemplos seguem, com títulos como “Vidente por Acidente” e “Não Tem Volta”, que estrearam nos cinemas, foram uma coprodução com a Buena Vista, da Disney, e tiveram pré-licenciamento negociado para Star+/Disney+. E entre os próximos lançamentos está “Uma Mulher Sem Filtro”, que começou com uma coprodução com a Fox. Capelini contou que, num contrato mais antigo, antes da pandemia, o filme não tinha uma venda de streaming negociada, e essa janela aberta permitiu uma negociação com a Netflix. “Levamos o filme praticamente todo financiado e a Netflix entrou com a pré-licença da janela de streaming. O filme vai para o cinema, depois para o streaming e, ainda, depois de certo período, podemos vender para TV aberta e fechada. A Netflix entrou quando estávamos com o roteiro praticamente fechado. Essa triangulação que fazemos com o distribuidor e com a plataforma, que se torna nossa parceira, é muito interessante. O distribuidor traz o olhar do público de cinema e a plataforma traz a visão do público do streaming, o que enriquece o projeto”. A estreia de “Uma Mulher Sem Filtro” está prevista para 2025. Por fim, está o projeto “Quinze Dias”, uma adaptação audiovisual do livro de Vitor Martins, que também foi pré-licenciado pela Netflix. 

Compondo financiamento 

“A entrada dessa ‘receita futura’, que na verdade é algo que estamos antecipando, é importante também porque os limites de valores dos financiamentos públicos que podemos acessar, como FSA, não acompanharam a inflação e o aumento nos orçamentos dos últimos dez anos. Sabemos que a Ancine está trabalhando nisso, mas sem essas vendas futuras, o orçamento para produzir para o cinema realmente fica muito limitado. Não dá para contar só com as fontes públicas”, assinalou a produtora da Conspiração.

Experiência da Glaz 

A Glaz Entretenimento também tem cases relevantes de pré-licenciamento com plataformas de streaming. “Brinco que o pré-licenciamento é o ‘novo modelo velho’. Sempre se fez isso – dividir janelas, complementar territórios, esse ‘picadinho’ para montar financiamento. Ganhamos muito com essa pré-venda. Podemos, por exemplo, aumentar o orçamento do projeto e, assim, produzir um filme com mais qualidade”, mencionou Mayra Lucas. 

A produtora também trouxe alguns cases, como o filme “Bem-Vinda a Quixeramobim”, uma pré-licença para o Globoplay. “Estreamos nos cinemas no começo da flexibilização da pandemia e foi bem difícil. Muitas salas ainda estavam fechadas. Fizemos um número de bilheteria bem abaixo da expectativa. Mas, no Globoplay, foi um sucesso estrondoso, sendo o filme mais visto durante semanas. Encontrou sua vocação na segunda janela – o que acontece também”, contou. E, entre projetos novos, ela falou sobre “Mamãe Saiu de Férias”, um remake de um filme independente argentino em parceria com a Galeria e a Disney. Nesse caso, a Disney, com o streaming, não tem uma pré-venda acertada, e sim prioridade de ver o projeto. “Mas a gente pode – e vai – oferecer para outros plataformas. Eles estão entrando no financiamento, mas mais pra frente também terão que entrar no debate sobre o preço. Pra nós, que temos os direitos da obra, é muito interessante, num modelo diferente dos outros”. 

Um destaque nessa cartela de projetos é “Cabras da Peste”, que envolveu um contrato de pré-licença com a Netflix. “Foi um pré-licenciamento involuntário”, brincou Mayra. Isso porque, por conta da pandemia, o lançamento nos cinemas foi muito pequeno, não conseguiu fazer público. “Então nossa distribuidora, a Paris Filmes, negociou com a Netflix. E foi maravilhoso, porque foi para o mundo inteiro e virou um hit”, celebrou. O longa já foi exibido duas vezes na TV aberta e também foi bem de audiência – e, na opinião da produtora, isso se deu um pouco por conta da própria Netflix: “O streaming levantou o filme. Já tinha um burburinho, quando passou na Globo muita gente que já tinha visto quis rever, ou falou pra quem ainda não tinha assistido assistir. O sucesso alimenta o sucesso. Essa partilha de janelas aumenta a projeção e as possibilidades de sucesso de um filme”. Agora, a Glaz se prepara para o “Cabras da Peste 2”, novamente com distribuição da Paris Filmes e a pré-licença para streaming já acordada com a Netflix. O projeto encontra-se em fase de roteiro e deve rodar no ano que vem. 

Para Mayra, um diálogo constante com os players é essencial para que esse trabalho de pré-licenciamento com as plataformas dê certo. “É importante ouvir o player, perguntar o que ele deseja e quais são as expectativas. Isso corta atalhos. Às vezes, investimos no desenvolvimento, gastamos dinheiro para trabalhar no roteiro, depositamos nossa energia e, no fim, o player não se interessa por aquele projeto”. 

Entraves desse modelo 

Carreira, que moderou o painel, mencionou um problema desse modelo. No Brasil, a maioria das obras são financiadas pelo FSA, que adquire direitos sobre as receitas, se torna uma espécie de “sócio” do projeto. O que acontece hoje, no regulamento atual do fundo, é que essa participação inclui também essas pré-vendas. “Isso nos coloca, como produtores, em uma situação delicada, porque o pré-licenciamento é parte importante no financiamento da obra. Se o FSA tem direito a essa receita, o valor vai para o fundo, e não para complementar o projeto. Estamos conversando no Sicav e tentando abrir conversas com a Ancine e o Comitê Gestor para que não considerem esse valor como receita do filme”, disse o produtor. 

Capelini acrescentou: “A receita mesmo só existe depois que a obra está pronta. Quando a gente define todos os sócios do filme, todos abem mão dessa receita do pré. Todos esperam sua vez de receber. Não faz sentido o FSA não aguardar também – até que haja um lucro de fato. O que entra, até que a gente consiga completar o orçamento, não é lucro, e sim fonte de financiamento. Esse é um ponto importante. Uma evolução que precisa acontecer”. 

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