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Para Carlos Saldanha, de “A Era do Gelo” e “Rio”, animação brasileira precisa criar uma linha contínua de projetos

Carlos Saldanha (Foto: Divulgação Rio2C)

Carlos Saldanha é um dos maiores nomes brasileiros da animação. Lá fora, pelo extinto Blue Sky Studios, ele esteve envolvido com projetos que, juntos, superaram o faturamento de dois bilhões de dólares em bilheterias ao redor do mundo – “A Era do Gelo”, “Rio” e “Robôs”. Ele foi nomeado duas vezes para o Oscar, a primeira com o curta “Gone Nutty” (2004) e, anos mais tarde, com o longa-metragem “O Touro Ferdinando” (2017). Saldanha continua desenvolvendo projetos para o mercado brasileiro e o norte-americano, como a série para a Netflix “Cidade Invisível”, lançada em 2021, “How to be a Carioca”, lançado pela Star+ em 2023, e “Harold and The Purple Crayon”, filme que será lançado pela Sony nos cinemas ainda em 2024. Nesta sexta-feira, dia 7 de junho, o diretor falou sobre sua trajetória e suas visões de mercado em um painel no Rio2C 2024. 

Depois de estudar nos Estados Unidos, Saldanha entrou para o time do Blue Sky, onde trabalhou com animação e teve a oportunidade de ser co-diretor do primeiro filme de “A Era do Gelo”. Depois, trabalhou em “Robôs” e, durante o processo, recebeu o convite para dirigir sozinho a sequência de “A Era do Gelo”, o que ele definiu como a grande virada de sua carreira, num projeto bastante desafiador, especialmente pelo sucesso do primeiro filme. “Na nossa indústria, tendo oportunidades, precisamos agarrar, porque elas não aparecem sempre, e são desafiadoras e importantes para essas viradas”, afirmou. Depois do segundo filme da franquia, veio o terceiro, e logo Saldanha pode rodar um projeto seu: “Rio”, que segundo ele, é um trabalho bastante autoral. “Queria mostrar para o mundo o que temos de bom para além dos problemas. Nossa beleza e nossa cultura. O desafio era contar essa história local para um contexto global. Tínhamos pânico de não gostarem do filme no Brasil, que era onde ele mais precisava funcionar. No resto do mundo, tínhamos a percepção de que funcionaria bem, muito por causa da música. E no fim foi muito bem no Brasil também”, contou. 

O filme “Rio” também ganhou uma sequência. Mais tarde, veio “O Touro Ferdinando”, adaptação de um livro dos anos 30 que contava a história de um touro que não queria lutar. “Era uma mensagem de paz, de identidade, numa trama muito simples, e que carrega um pouco do meu DNA – emoção e coração, mas muita aventura. Os projetos, para mim, seguem essa receita”, revelou. O filme foi reconhecido pela Academia, mas acabou sendo o último que Saldanha fez no Blue Sky, que foi comprado pela Disney e acabou encerrando as atividades. “Teve a emoção da indicação e desse fim de uma era”, lembrou. 

Depois dessa jornada, o diretor começou a trabalhar mais na parte de VFX e efeitos, e decidiu se aventurar em outros lugares, voltando suas raízes para o Brasil. Foi quando ele criou a série “Cidade Invisível” (Netflix), que traz histórias de lendas do folclore brasileiro, seguindo ainda essa linha mais lúdica, e contando histórias nacionais no contexto global. “Foi um desafio que me trouxe conhecimento e parcerias muito interessantes no Brasil em relação a efeitos especiais. A Pródigo, que produziu a série, montou uma equipe fantástica, que elevou o nível e transformou o projeto de fato em uma série global. Foi muito bom ter feito isso no Brasil porque me reconectou”, observou. Outra série de Saldanha foi “How to be a carioca” (Star+), com Joana Mariani. “Gosto de projetos diferentes, sempre trazendo cultura a inovação”, acrescentou. 

Novo filme em live-action 

O próximo longa do diretor também traz uma trama mais lúdica, onde tudo o que é desenhado com um lápis mágico vira realidade. “A história se desenrola a partir de como isso acontece, como a pessoa usa esse poder. É para o bem, mas envolve desafios emocionais. Não tem história interessante se não tem desafio, um problema a ser resolvido”, disse. O filme, que é voltado para a família, é um live-action com muitos efeitos especiais. No Brasil, onde se chamará “Harold e o Lápis Mágico”, ele estreia nos cinemas em agosto. 

Necessidade de formar uma indústria no Brasil 

Ao analisar a indústria de animação atual, Saldanha define que o momento é de transição global. Ele relembrou que, na pandemia, a animação também foi bastante impactada. “Fazer animação de casa, pra mim, até então era algo que não existia. Eu gosto de ir para o estúdio, ter a conexão com os outros animadores, com a história, mostrar como quero que a cena seja feita. Foi difícil, mas nos adaptamos”, contou. O lado bom dessa transformação foi a possibilidade de começar a trabalhar com equipes do mundo inteiro, o que abre um novo leque de talentos. O lado ruim foi que muitos estúdios acabaram fechando. “As coisas foram minguando. Tivemos os grandes anos dourados da animação, bilhões nas bilheterias. Nos últimos anos, ainda muito por conta da pandemia, os projetos não tiveram grandes sucessos. Foram muitos ganhos e perdas. Agora, estamos reavaliando o mercado, o que podemos fazer dentro desse contexto que nos leve de volta aos anos dourados”. 

Para o diretor, a indústria é feita de ciclos, e o ciclo atual é marcado pela descoberta – que, em seu caso pessoal, tem acontecido no Brasil. “Sempre quis fomentar a indústria de animação e trazer projetos para o Brasil. Tenho esse feeling de que, agora, sem os vínculos de contrato, posso ficar mais livre, e trazer um pouco disso para cá, ver o que podemos fazer. Agora que o audiovisual está tão globalizado, por que não fazer no Brasil? Foi mais ou menos o que tentei fazer com as séries. Projetos diferentes, pegando minha experiência lá fora e juntando com as experiências e conexões das pessoas aqui e finalmente montar nosso próprio berço de ideias e projetos”. 

Saldanha ressalta que a questão no Brasil não é falta de talentos, porque isso o País tem. Mas talvez falte uma junção de talentos, grupos de pessoas que pensem na mesma coisa para montar grandes projetos. “Estamos acostumados a trabalhar como freelancer, não com grandes estúdios. É importante juntar talentos e ter esse compromisso de realizar um projeto. E montar uma indústria, ou seja, uma linha de produção de projetos que são produzidos, criam-se talentos, e dá continuidade. A indústria de animação tem que ter projetos, um line-up de ideias viáveis na mesa. Não sonhos pessoais, mas projetos que possam ser feitos para ganhar o Brasil e o mundo. Com qualidade, as histórias podem viajar. Podemos trazer investimento externo para o contexto local. É um desafio de confiança: as pessoas têm que confiar para investir. Por isso temos que criar essa base”, defendeu. 

Ao lado do produtor Marco Anton, Saldanha atua na Boipeba Filmes – que, segundo ele, surgiu desse sonho, da vontade de criar mais projetos no Brasil. “Somos um grupo pequeno, mas bem apaixonado pelo cinema e pela arte de contar histórias”, concluiu. 

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