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Assim como a produção, distribuição também precisa repensar modelos de negócio

Cavi Borges, Talita Arruda, Jairo Neto e Felipe Lopes (Foto: Divulgação Rio2C)

O painel “Estratégias de distribuição para produtores independentes” realizado no último sábado, dia 8 de junho, no Rio2C, reuniu especialistas para debaterem esse elo da cadeia audiovisual. A conversa deixou claro que, além da produção, que tem buscado novos modelos de negócio, inovações técnicas e diferentes possibilidades de financiamento de projetos, a distribuição também precisa pensar para além dos padrões estabelecidos pelo passado no atual contexto de transformações. Se os hábitos de consumo das pessoas mudaram, as formas de distribuir o conteúdo que elas irão consumir precisam acompanhar essas mudanças. 

Felipe Lopes, diretor da Vitrine Filmes, moderou o painel e logo no início afirmou que os desafios de chegar ao público são a maior preocupação dos produtores independentes e distribuidores na atualidade, e que a distribuição é um dos principais gargalos. Para ele, o caminho passa por encontrar parcerias e redes de apoio, sempre respeitando as expectativas e metas de cada filme. 

Talita Arruda é fundadora da Fistaile, empresa de consultoria de distribuição, curadoria e desenho de audiência. Para ela, a discussão parte da ideia de que o cinema é uma ferramenta de se colocar para o mundo, por isso é tão importante pensar em como comunicar os filmes. “No ofício da distribuição, quando comunicamos, temos que pensar nas janelas, nos perfis dos filmes e entender que estamos falando com pessoas que são atravessadas por vivências e emoções. O espaço de troca é fundamental para estarmos em contínuo aprendizado. Como as formas de produzir e consumir mudaram, a distribuição também precisa se transforma e pensar em como trabalhar de novas formas. Precisamos manter a escuta ativa para enxergar novas possibilidades de fazer nossos conteúdos circularem. Nesse sentido, parcerias nos fortalecem bastante”, apontou. 

Cavi Borges, fundador e diretor da Cavideo, locadora, produtora e distribuidora de cinema carioca, e à frente dos eventos do Cinema Estação, reforça que o cinema está sempre mudando porque está ligado à tecnologia, o que torna fundamental essa atenção às mudanças falada anteriormente. “Pensar em cada filme como uma coisa única é um caminho. É entender seu filme – as estratégias não são únicas para todos eles. E pensar em várias janelas também. Às vezes, aquele filme não é para o cinema. Existem várias outras possibilidades. Como diretor, eu quero que meu filme seja visto o máximo possível. Por isso não dá para pensar em distribuição só para o cinema. Ainda mais para filme independente”, garantiu. Lopes concordou: “Sempre enfrentamos esse lugar de para quem a gente comunica, para quem fazemos nossos filmes e como chegamos nas pessoas. São perguntas frequentes, e o que buscamos ter sempre em mente para respondê-las é entender cinemas e públicos no plural. Não tem fórmula mágica, cada lançamento tem suas especificidades. Não é só pensar na distribuição em si, e sim na comunicação com o público final”. 

Distribuição como pensamento criativo 

A empresa de Arruda foi criada muito por conta desse pensamento mencionado pelo diretor da Vitrine – a comunicação e o desenho de audiência para além da distribuição em si, e que deve ser uma construção pensada no público final desde o começo do projeto. “É importante entender os objetivos, isto é, o que queremos com o filme, com quem queremos falar. E nesse caminho, é essencial fomentar esse pensamento de trazer a distribuição desde o pensamento criativo. A distribuição também é um pensamento criativo – ela pode aparecer já no roteiro, no argumento, na ideia”, salientou. “Sempre que vamos pensar para quem é aquele filme, buscamos visualizar a figura de uma pessoa específica, para entender o que essa pessoa faz, quais são as vivências dela e em quais territórios ela circula. Isso ajuda a entender como comunicar o filme”, sugeriu. 

E para ela, isso é válido não somente para as audiências finais, mas também para o momento de angariar parceiros: “A forma como comunicamos o filme para o público é diferente da forma que o apresentamos para uma possível coprodutora, por exemplo, ou para um canal de TV que pode vir a exibi-lo”.

Desequilíbrio de mercado

“O Brasil não tem distribuidora suficiente para todo mundo”, declarou Borges. “Por isso, temos que lembrar que não precisamos de uma distribuidora para distribuir nossos filmes. A própria produtora pode fazer isso, uma auto-distribuição. Para os editais da Ancine, eles exigem essa empresa distribuidora. Mas se não for envolver edital, não precisa”. E, para esse modelo de “auto-distribuição”, o diretor destaca duas palavras importantes de se ter em mente: diferencial e divulgação. Ele explicou: “Tem muito filme, então o que faz o seu se diferenciar? Analisar os diferenciais é muito importante. E a divulgação. As pessoas precisam saber que o filme existe – por isso, os produtores, diretores, todos os profissionais envolvidos precisam saber divulgar seu trabalho. Se não sabe divulgar, arruma alguém, busca um parceiro. Se eu não consigo inscrever meu filme num festival, eu invento meu próprio festival para exibi-lo. Minha política é a do faça você mesmo – claro, se associando a outras pessoas, porque ninguém é obrigado a saber fazer tudo. Parcerias reúnem as melhores qualidades de cada um, e essa união só potencializa o filme”. 

Lopes enfatiza esse ponto do desequilíbrio no mercado, isto é, a diferença na quantidade de pessoas que produzem e pessoas que distribuem: “É um caminho incentivarmos quem tem essa veia empreendedora a pensar na distribuição como possibilidade de carreira, porque o número de produtoras e distribuidoras é muito discrepante. Além disso, na produção vemos mais organização e políticas para lutar por investimentos. Na distribuição, tem menos. É importante ter esse coletivo e pensamentos juntos nesse objetivo, que é comum entre quem produz e quem distribui”. 

Proposta alternativa para captação de recursos 

Todo esse debate, claro, recai em investimento. Afinal, as coisas não são gratuitas. Campanhas de mídia e distribuição de impacto são importantes, mas custam dinheiro. Daí vem a necessidade de repensar modelos de negócio. Nesse sentido, Jairo Neto, diretor e produtor criativo, especializou-se em financiamento e distribuição cinematográfica descentralizada – por exemplo, via blockchain, naquilo que tem sido chamado de cinema 3.0. “É uma proposta alternativa para a distribuição independente e captação de recursos. Fazia meus filmes e sempre me perguntavam quando ia passar no cinema – e eu não sabia se ia passar. Como trabalhava de forma independente, fui migrando para o digital, buscando soluções digitais de inovação. Principalmente no período da pandemia, com os cinemas fechados, sem saber direito o que aconteceria com o mercado, comecei a participar de projetos diferentes, como festivais de cinema totalmente online. Na sequência, comecei a entender o uso de blockchain para distribuição e financiamento”, contou. 

O modelo funciona mais ou menos como as “vaquinhas” que ajudam a financiar os projetos. No caso desse financiamento via blockchain, as pessoas podem comprar um “ativo” do filme, como se fosse um pedaço dele – e, assim, viram detentoras dele. O que a pessoa ganhará pode ser escolhido pelo próprio produtor – artes do filme, por exemplo. “Quando as pessoas fazem parte do ecossistema, querem participar do filme de alguma forma. Então criam-se comunidades que interagem e trocam ideias sobre ele – nesse sentido de querer participar mesmo, saber o que está acontecendo”, detalhou Neto. “Quando a pessoa tem um pedaço do filme para ela, se sente privilegiada. É bonito de ver. Ela divulga, quer promover exibições”. 

Outras premissas importantes 

Um ponto muito importante nessa equação é entender sobre propriedade intelectual. “A distribuição pressupõe que o produtor independente tenha os direitos sobre essa propriedade. Entender sobre gestão de modelo de negócio é fundamental para pensar em inovações e possibilidades a longo prazo”, alertou Lopes. 

Já Borges destacou o fato de que, especialmente no pós-pandemia, as pessoas não saem de casa só pelo filme – e isso é algo a se ter em mente na hora de pensar a distribuição: “Elas saem pensando no filme, mas também no encontro, no debate, na conversa, no coquetel. Por isso é legal fazer um evento mesmo, sessões especiais. Muitas vezes, apostar somente em um grande evento é melhor do que investir na exibição do filme no circuito comercial”. Além disso, ele salientou como a relação com a distribuidora tem que ser positiva, até afetiva mesmo. “Não adianta procurar uma distribuidora gigantesca para distribuir um filme independente porque ela nem vai saber fazer. É melhor procurar outro caminho, encontrar parceiros com semelhanças de gostos e pensamentos. O seu próprio grupo. Que muitas vezes pode estar no seu estado mesmo, e não nos grandes centros. Se é um filme no Ceará, investe lá. Depois pensa no nacional”. 

Políticas públicas para distribuição 

Por fim, os especialistas reiteraram como esse aspecto ainda é frágil. O papel da Associação das Distribuidoras Independentes é estratégico, conforme disse Arruda, mas é essencial olhar para políticas protecionistas para realmente existir mais fomento e espaço para a circulação do cinema brasileiro de diferentes perfis. “Precisamos estar em articulação e não pensar na distribuição isolada, e sim com uma visão macro, em parceria com todos os outros setores. Quando essa articulação é potencializada, caminhamos para políticas públicas mais eficazes para os lançamentos. Acho um absurdo a diferença entre os orçamentos para produção e distribuição – enquanto os primeiros podem envolver dois milhões de reais, para a distribuição é cerca de 300 mil. O descompasso é muito grande. E é necessário ainda mais fomento para estruturarmos outras distribuidoras e crescer esse mercado”, concluiu. 

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