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No pós-pandemia, audiovisual demanda ainda mais investimentos e financiamento para formação de profissionais

Nos últimos anos, houve na indústria audiovisual uma crescente busca por equipes técnicas de produção e pós-produção altamente qualificadas para atender a demanda de produção de conteúdo gerada por serviços de streaming, bem como da produção tradicional. No entanto, especialmente na América Latina, há uma carência de equipes capacitadas para atender essas demandas. Com a pandemia, muitas produções foram pausadas, mas a indústria projeta uma rápida recuperação de crescimento – e a partir daí, uma demanda ainda maior pela produção de conteúdo audiovisual e, consequentemente, uma demanda maior por equipes capacitadas de profissionais técnicos, aqueles que atuam “below-the-line”.  Nesta segunda-feira, dia 10 de outubro, essa questão foi o tema central do painel “A formação técnica: o ponto fraco na cadeia produtiva audiovisual” no RioMarket, braço de programação voltado ao mercado do Festival do Rio. 

Segundo uma pesquisa com produtores audiovisuais encomendada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID para a publicação “Nos Bastidores: criatividade e investimento para a América Latina e o Caribe: lições aprendidas de uma conversa com as principais vozes do setor audiovisual”, pelo consultor independente Olsberg SPI, 58% dos entrevistados consideram que não há pessoal técnico suficiente na América Latina e no Caribe. 

Para Affonso Beato, diretor de fotografia e diretor de ensino na ABC Cursos de Cinema, o problema tem uma raiz na formação universitária dos profissionais do audiovisual. “Antes, era possível começar a trabalhar na área como assistente de câmera e ir subindo de cargo até ser diretor de fotografia, por exemplo. Hoje, isso não é mais uma realidade. Queremos encontrar pessoas com formação universitária, currículo. No Brasil, temos boas escolas de cinema. Há diferentes opções, cursos. Mas a questão – que não é culpa das escolas e também não falando de forma generalista – é que a legislação do MEC não permite que um artista, um técnico, um profissional experiente ensine nessas universidades. É exigido que se tenha mestrado, e muitos dos bons profissionais não têm. Na maior parte das escolas de ensino superior a formação acadêmica é maravilhosa – é importante saber a história da arte, do cinema – mas na parte técnica, você não tem instrutores com experiência de profissionais. Por isso há uma proliferação de cursos livres na área, que suprem essa deficiência. Precisamos reformular a legislação das escolas superiores, que é um processo difícil, e aprimorar esse conhecimento dos profissionais. Um exemplo do que estamos fazendo agora é investir em programas de integração com universidades”, comentou. 

Políticas públicas passam pela capacitação do setor 

Andressa Pappas (foto), Gerente Geral e Diretora de Relações Governamentais da Motion Picture Association (MPA) no Brasil, ressaltou que a capacitação é essencial, mas faz parte de uma gama maior de políticas públicas que precisam ser implementadas: “Os grandes pilares para uma indústria audiovisual sustentável são qualificação profissional, mecanismos de atração de investimentos, como cash rebate e infraestrutura, e competitividade, isto é, investimentos em produção, distribuição e internacionalização. Há uma necessidade de políticas públicas que não foquem só em editais de fomento para produção. É necessário pensar na indústria como um todo, com políticas voltadas para todos os elos da cadeia produtiva, que no final resultarão na capacidade das nossas obras viajarem”. 

Hoje, discussões acerca da regulação do setor, especialmente no que diz respeito às plataformas de VoD, estão em pauta no Brasil. Para a executiva, o caminho não deve passar por uma regulação rígida – como a imposição de cotas locais, por exemplo. “Na nossa visão, são políticas intervencionistas que são pouco eficazes e, por vezes, até prejudiciais. Do ponto de vista regulatório, tornam o ambiente menos atraente, com redução de investimento e impacto negativo na produção, distribuição e exportação de obras audiovisuais”, apontou. Para reforçar a visão, ela trouxe um dado oriundo de um estudo do professor Dr. Raul Katz que diz que políticas públicas que visem atração e investimentos são oito vezes mais eficazes do que regulações rígidas. 

Associados da MPA, por exemplo, têm investido milhões de dólares nas produções locais. “O Brasil é um dos países mais diversos que existem. São muitas culturas, cenários, talentos e criatividade. Isso chama atenção. Mas acreditamos que, sem capacitação, a atração de investimentos cai, o que impacta diretamente na distribuição e nos resultados das nossas obras”, enfatizou Andressa, que mencionou ainda que, no mundo, somente em investimentos na produção audiovisual brasileira veremos um montante de 61 bilhões de dólares até 2024 – segundo o estudo “Impacto Econômico de Serviços de Vídeo Sob Demanda no Brasil”, da Frontier Economics, de 2021. 

Para a diretora, os desafios são diversos, mas envolvem principalmente a falta de profissionais, investimentos e financiamentos para formação, falta de cursos de profissionalização nas instituições de ensino e percepção muitas vezes equivocada de baixos salários. “Investimento é a palavra de ordem”, resume. “Políticas públicas e iniciativas que encorajem investimentos no setor audiovisual brasileiro tendem a reforçar um círculo virtuoso. Ao implementar tais políticas de incentivo à indústria audiovisual, o Brasil desfrutará de benefícios mais amplos, como novas oportunidades de emprego, maior produção econômica, aumento das produções e melhoria na infraestrutura. Isto, por sua vez, cria condições para que novos investimentos sejam atraídos”, conclui. 

Programas desenvolvidos em parceria 

Steve Solot, presidente do Latin American Training Center – LATC, participou da discussão e contou que durante 2021, o LATC implementou o “Programa LATC de Atualização Técnica para Profissionais do Audiovisual” em dez países do continente. O formato consiste em uma série de dez masterclasses online, com duas a três horas de duração cada, abrangendo as principais etapas da cadeia de produção audiovisual. E especificamente para o Brasil, em 2022, estão previstos dois programas. O primeiro deles consiste em 254 vagas de sete cursos de aperfeiçoamento para profissionais do audiovisual de São Paulo patrocinado pela Spcine com parceria da ABC Cursos de Cinema. As inscrições ficarão abertas entre 18 e 31 de outubro. O segundo projeto envolve um curso de inglês para profissionais do audiovisual, desenvolvido pela LATC com o apoio técnico e institucional do Sindcine – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual. “Compilamos dados com parceiros para montar, ao lado de tutores e professores, programas que fizessem sentido. Para isso, as parcerias são fundamentais”, disse. 

Por fim, Solot elenca os passos nos quais o planejamento de políticas públicas para a capacitação técnica deve focar: coordenação com a indústria para estabelecer as necessidades específicas do setor; oferta de cursos técnicos para todos os níveis, desde estagiários até profissionais que precisam de reciclagem; a oferta de financiamento para ciclos de masterclasses, cursos e workshops de formação técnica com uma continuidade permanente; e apoio para uma variedade de iniciativas de aprendizagem profissional no trabalho, como estágios, contratações em regime de tempo parcial por empresas produtoras e “shadowing”, a observação de atividades profissionais no posto de trabalho. 

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