CINEMA
12/11/2019, 18:17

Filho de Vanja Orico, Adolfo Rosenthal produz e dirige documentário sobre sua mãe

No dia 15 de novembro de 2019, Vanja Orico, reconhecida mundialmente como Musa do Cangaço, completaria 90 anos. Única brasileira que estrelou um filme do renomado cineasta Frederico Fellini, a artista será tema de um docudrama dirigido, roteirizado e produzido por Adolfo Rosenthal, seu filho. Em fase de produção, "Vanja Orico – Ao Arrepio do Tempo" tem previsão de estreia entre o final de 2020 e o início de 2021.

"Há dez anos, Vanja escreveu um livro de memórias que não chegou a ser publicado. À medida que fui lendo esse material, percebi como ela tinha um estilo próprio, e como sua história era digna de filme. Mas, na época, eu estava envolvido em outros projetos, então isso ficou só na ideia", conta, em entrevista exclusiva, Adolfo Rosenthal. "Vanja faleceu em 2015 e, quando estava no hospital, prometi a ela que faria esse filme. Foi algo muito forte para mim e, a partir daí, virou uma missão. Como sou filho único, fiquei com todo o acervo dela. Quando me deparei com aquela quantidade de coisas, fiquei chocado. Além de ser um material muito precioso, é rico e raro demais. Então comecei meu trabalho de catalogação", completa.

Rosenthal revelou que sempre soube que sua mãe trabalhara em diferentes áreas artísticas ao longo de sua vida, mas não tinha dimensão do tamanho de sua carreira. "Diferentemente de outros artistas, a Vanja nunca teve uma grande biografia feita sobre ela. O trabalho que eu tinha seria esse, de biógrafo mesmo, reconstruindo sua trajetória. Percebi que não seria possível contar essa história se esse arquivo não fosse catalogado e processado em uma linha do tempo. A equipe que trabalhou comigo na digitalização envolveu museólogos e historiadores. Passamos praticamente dois anos só catalogando e pesquisando os registros que a Vanja deixou no Brasil e no mundo – e esse processo ainda não acabou. Em fevereiro do ano que vem completamos três anos só de pesquisa de produção. Agora, estamos trabalhando no roteiro para finalmente entrar na ilha", explica. Entre os materiais reunidos estão filmes caseiros, filmes profissionais, participação em programas de TV, registros de apresentações musicais, fotografias, reportagens de jornais, recortes de revistas e gravações de rádios, entre outros. "Só de matérias de jornais são mais de três mil, vindas de diversas partes do mundo, como Marrocos, Cuba, Estados Unidos, a Europa inteira. Sorte que ela sempre guardou tudo. Coisa da mãe dela, que também era uma pessoa muito organizada e fazia questão de guardar esse tipo de registro. É um acervo único no Brasil", garante o diretor.

Em fase de redação de roteiro, Rosenthal pontua que o maior desafio é entender como contar essa história da melhor forma possível, selecionando o que é mais importante: "Não dá para contar tudo, então preciso dividir o que pode e o que não pode ficar de fora. Em casa, tenho um painel colado na parede de cerca de cinco metros com a cronologia dela. É cheio de post-its, linhas do tempo, anotações. As matérias de jornal têm me ajudado muito nesse sentido porque trazem as datas impressas". Sobre o fato do trabalho mesclar vida profissional com pessoal, o filho de Vanja Orico afirma que isso não é um problema. "Eu mergulhei tanto nessa história que parece que ela deixou de ser sobre a minha mãe. É como se eu tivesse investigando a vida de uma pessoa distante, tentando descobrir tudo que ela fez, por onde passou, quais foram seus romances…", disse.

Como expectativa com o longa, o produtor, roteirista e diretor cita alcançar a geração mais jovem. "Trabalho com roteiristas jovens e muito talentosos que nunca tinham ouvido falar na Vanja. Quando mergulharam no processo, ficaram encantados. Quero causar esse mesmo impacto no público jovem que assistir ao filme. É um dos meus principais objetivos. Também gostaria de rejuvenescer a imagem dela, mostrando como Vanja é um ícone da nossa cultura. Ela foi pioneira em tudo que fez e sua história passa muito pelo empoderamento feminino. Ela foi tão importante e, hoje, está tão esquecida. Poucas pessoas sabem quem ela foi e isso me entristece. Mais do que ser minha missão por conta da promessa que fiz, também é minha missão deixar esse registro para futuras gerações", comenta.

Após lançar o filme, Rosenthal ainda pretende dar forma ao livro que Vanja gostaria de ter publicado e já tem em mente uma série de outros desdobramentos. "Quero fazer uma exposição que já está desenhada. Será interativa, resgatando os cenários onde ela viveu. E também gostaria de deixar esse acervo que reuni em algum espaço, como um centro cultural ou de memória, por exemplo", conclui.

Vanja Orico

Um dos maiores ícones de afirmação da cultura brasileira, com destaque nacional e internacional no cinema, na música e na moda, Vanja Orico completaria 90 anos em 2019. Única brasileira a estrelar um filme de Frederico Fellini, se destacou mundialmente no papel de uma ciganinha que cantava a música "Meu limão, meu limoeiro" em "Mulheres e Luzes". Após o sucesso do filme, fez um programa de TV semanal na RAI (Itália) e iniciou sua carreira musical como cantora lírica, fazendo concertos em Paris, na Bélgica, Alemanha e Itália, e se apresentou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ao protagonizar "O Cangaceiro", primeiro filme brasileiro com repercussão mundial, foi premiada no festival de Cannes de 1953. Ficou conhecida como a eterna Musa do Cangaço. Cantou os sucessos "Mulé Rendeira" e "Sodade, meu bem Sodade", projetando a música brasileira de raiz para o mundo, fazendo turnês por toda a Europa e Americas. Estrelou filmes nacionais e internacionais e lançou dezenas de discos, tendo como parceiros musicais Ary Barroso, João Gilberto, Os Cariocas e Tom Jobim. Em 1968, durante a ditadura militar, foi presa e em seguida deixou o Brasil, indo morar com a família em Paris. Na volta, a reinserção na vida cultural foi se tornando cada vez mais difícil. Nessa época, outros movimentos artísticos se firmaram, como a Bossa Nova e depois a Tropicália, o Cinema Novo e a Pornochanchada. Aos poucos, Vanja foi sendo esquecida pela mídia. Mesmo assim, persistiu no seu trabalho: lançou novos discos independentes, fez shows, participou em filmes nacionais e programas de TV e criou projetos para levar a cultura regional para as ruas.

Comentários

1 Comentário

  1. Avatar Fátima Simões disse:

    Muito me encanta saber quantos personagens fizeram a história do Brasil . Teremos uma grande oportunidade com este filme saber um pouco mais da nossa história!
    Preservar a memória de um país é fundamental para as próximas gerações e principalmente para reconhecermos os verdadeiros talentos e conhecermos seus legados !

Deixe o seu comentário!

© 1996-2019 Save Produções Editoriais. Todos os direitos reservados.
Top