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Cinco principais insights do Rio2C para o setor audiovisual

(Foto: Divulgação Rio2C)

Na última semana, o Rio de Janeiro recebeu mais uma edição do Rio2C, um dos maiores eventos de criatividade da América Latina, que promove uma intensa agenda de painéis e debates sobre áreas como audiovisual, sustentabilidade, música, games, arquitetura e urbanismo, educação e trabalho, neurociência, publicidade e marketing, moda e creator economy, entre outras. O Rio2C 2024 recebeu mais de 50 mil pessoas na Cidade das Artes ao longo de seus seis dias de programação, reunindo 1.663 palestrantes em 14 palcos e sete espaços de conteúdo. TELA VIVA acompanhou o evento e aqui, reunimos os principais insights para o setor audiovisual. 

Menor participação do poder público 

Se em 2023 um dos principais destaques da programação do Rio2C foi uma expressiva participação do poder público, com membros da Ancine e do Ministério da Cultura presentes em uma série de painéis e palestras, celebrando uma nova fase da indústria, marcada especialmente por essa reaproximação dos órgãos e agências reguladoras, ministérios e governo com o mercado, neste ano, essa presença diminuiu bastante

Paulo Alcoforado, diretor da Agência Nacional do Cinema, e Joelma Gonzaga, Secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, dividiram o palco no painel que debateu a regulação do VOD. Na ocasião, Gonzaga salientou aquele que é o ponto crucial para a SAV e o MinC em qualquer versão de marco regulatório para streaming: garantir ao produtor independente a propriedade intelectual e patrimonial das obras. “Qualquer projeto precisa partir deste ponto”, enfatizou. Do ponto de vista do órgão regulador, Alcoforado foi enfático: “Só faz sentido ter regulação se for pela ampliação do mercado”. Para ele, não há um antagonismo entre agentes, uma vez que a missão é criar um ambiente com regras no qual todos possam trabalhar. Apesar de a Ancine ser patrocinadora do evento, sua presença durante os dias de programação foi tímida. 

IA, produção virtual e TV 3.0 

Como já era de se esperar, a inteligência artificial foi amplamente discutida no Rio2C. Parte dos especialistas veem uma adoção natural da IA como forma de potencializar processos criativos. José Almeida, gerente de efeitos visuais na Globo, garante que, na emissora, a IA tem sido utilizada exclusivamente com o intuito de auxiliar a contar as histórias. “Sempre prezamos pela responsabilidade ao usar cada uma dessas possibilidades”, disse durante um painel intitulado “Fronteiras da Inteligência Artificial”. Mas na mesa, ficou evidente que um dos pontos de maior polêmica em torno do assunto é a suposta eliminação de empregos e postos de trabalho que as ferramentas podem ocasionar. “Toda revolução tecnológica acaba gerando novos postos de trabalho – mas, antes, tem uma fase de eliminação das pessoas que não chegam a certos lugares. Isso, na sociedade capitalista, é cruel. É importante se capacitar minimamente em certas áreas, saber operar novos motores”, alertou o montador Danilo Lemos. 

Um outro debate, desta vez a partir do tema “Os efeitos da IA generativa na criação de conteúdo original”, reuniu Paulo Barcellos, CEO da O2 Filmes e diretor geral da O2 Pós; Hugo Gurgel, supervisor de pós-produção e um dos diretores da Quanta; e Tato Bono, responsável por toda a área de produção da Play9 – todos profissionais que já usam com frequência ferramentas de IA em seus trabalhos. Mais uma vez, foi levantada a preocupação com os empregos e postos de trabalho, além da questão da inclusão digital. “Estamos muito atrasados nesse sentido, então temo que a gente fique para trás”, declarou Bono. 

Ainda dentro de novas tecnologias, o avanço da produção virtual também foi bastante citado ao longo dos dias de Rio2C. Produtores destacaram que o ambiente virtual ainda é relativamente novo e que, portanto, não está sempre dentro das perspectivas de orçamento das produtoras. Diogo Costa, diretor de tecnologia na Quanta, reforçou que a parte do orçamento é uma das maiores dificuldades: “Por isso é importante pensarmos nisso desde a pré. No fim, quando pegamos os números e comparamos os valores, normalmente sai mais barato”. Ale Seara, gerente de pós-produção de A Fábrica, completou: “É otimização de recurso e tempo, num grande ganho de produtividade”. Os especialistas citaram cases recentes de produção virtual e ainda debateram o contexto atual e os principais desafios – para eles, o Brasil está avançado em termos de evolução de ferramentas e utilização das mesmas na produção virtual, e não muito distante do mercado de fora. Mas, segundo Costa, a condição básica para esses processos funcionarem é a troca entre todas as partes envolvida nos projetos. Outra demanda é investir em formação para fazer da produção virtual de fato um mercado, e não somente um nicho.

Por fim, a TV 3.0 também dominou algumas mesas. Um time da Globo apresentou como a emissora tem se preparado para adotar a nova tecnologia e destacou quais serão as principais mudanças que ela trará ao mercado. Ana Eliza Faria e Silva, gerente sênior do regulatório e telecom da Globo, pontuou que a TV 3.0 é marcada principalmente por essa convergência entre TV aberta – que entra com seus maiores ativos, tais como força de marca, alcance, qualidade, gratuidade, segurança e acessibilidade – e o digital, que traz para esse universo sua conveniência, personalização, facilidade, dados e medição censitária: “A TV 3.0 insere definitivamente a TV aberta na economia digital”. Já Leonora Bardini, diretora de programação e marketing da TV Globo, em entrevista exclusiva para TELA VIVA, revelou que o grupo já tem desenvolvido soluções para os parceiros comerciais no ambiente de TV 3.0

Fim da era de ouro dos streamings no Brasil

Ficou nítida uma mudança no comportamento dos grandes players de streaming do ano passado pra cá. Em 2023, as plataformas comandaram grandes painéis, que foram verdadeiros shows, com exibição de trailers inéditos e participação de talentos e executivos, para apresentar grandes números de investimentos em produções brasileiras, anunciar grandes estreias e celebrar parcerias. Já em 2024, elas anunciaram um número bem menor de novos conteúdos, algumas deram mais espaço para lançamentos internacionais do que nacionais e outras nem sequer estiveram presentes – o Prime Video, por exemplo, participou do evento em 2023 protagonizando um grande painel no Golden Stage, o palco principal, enfatizando o desejo de produzir mais filmes originais nacionais. Neste ano, a plataforma nem teve uma apresentação oficial no evento. Sua participação ficou restrita à presença de executivos nos pitchings. 

Se em 2023 a Netflix celebrou já ter investido mais de R$ 1,5 bilhão em conteúdo brasileiro e anunciou seu primeiro melodrama nacional, “Pedaço de Mim”, neste ano ela mencionou novamente a produção, levando ao palco a protagonista, Juliana Paes, e falou sobre conteúdos já anunciados anteriormente, como o doc-reality musical “Nova Cena”; o documentário sobre o jogador de futebol Vini Jr.; o filme “Caramelo”; e a minissérie “Os Quatro da Candelária”. As novidades ficaram por conta de uma adaptação do clássico de Paulo Coelho, “O Diário de um Mago”, com filmagens no Brasil e na Espanha, e a nova minissérie baseada no livro “Pssica”, do escritor paraense Edyr Augusto, com produção de Andrea Barata Ribeiro, da O2 Filmes, e direção de Fernando Meirelles e Quico Meirelles. A Netflix também destacou bastante a série “Senna” – o projeto mais ambicioso da história da plataforma no Brasil

A WBD, por sua vez, também diminuiu o tamanho de seu painel. O grupo acabou dedicando bastante tempo para produções internacionais, como a segunda temporada de “A Casa do Dragão”, e a conteúdos já bem-sucedidos, como “Irmão do Jorel”, que completa dez anos. Marina Filipe, gerente sênior de produções originais Kids & Family da WBD no Brasil, e Lívia Ghelli, diretora de estratégia e revenue para América Latina e head do Brasil para as marcas infantis, afirmaram que a WBD está sempre aberta a receber novos projetos e que, nesse projetos, é importante que exista um equilíbrio entre características locais e globais. Já para o público adulto, o grupo de mídia foca a produção em biografias, dramas contemporâneos, grandes IPs e doc-reality. Na apresentação, ficou evidente que a principal aposta da plataforma é a série “Cidade de Deus – A Luta Não Para”, com direção de Aly Muritiba, que tem estreia confirmada para agosto deste ano. O grupo acredita, inclusive, no poder global da produção. Mariano Cesar, General Entertainment Content Leader da WBD para a América Latina, reiterou a força dos conteúdos que se tornam franquias, e Mônica Pimentel, VP de conteúdo da WBD Brasil, também reforçou o foco em IPs que podem alcançar sucesso global.

Atualmente, o grupo conta com 60 títulos em fase de desenvolvimento e produção – mas, assim como aconteceu com a Netflix, a maior parte dos produtos apresentados no painel já foram anunciados anteriormente, como a série documental que contará a trajetória de Iran Ferreira, o Luva de Pedreiro, e a série “Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente”. As novidades ficaram por conta de produções de não-ficção, como as séries “Sob Esta Pele” e “Central de Transplantes”

A conclusão aqui é que já passou a “golden age” das grandes plataformas de streaming produzindo no Brasil. Possivelmente por conta da iminente regulação do VOD, ou ainda por pressões do mercado por resultados, elas estão apostando mais em qualidade do que quantidade, focando em conteúdos com capacidade de viajar e se tornar sucesso global ou ainda em grandes franquias, que possam se desdobrar em novos produtos que já tenham uma base de fãs garantida. 

Novos modelos de negócio

Em paralelo a essa redução de investimentos das plataformas de streaming, o setor audiovisual nacional entendeu a necessidade de se movimentar em direção a novos modelos de negócio, rentabilizar suas propriedades intelectuais, repensar a distribuição das obras e apostar mais nas possibilidades de coproduções internacionais. Nesse sentido de encontrar caminhos diferentes, os painéis trouxeram discussões sobre o pré-licenciamento de filmes para cinema como primeira janela para plataformas de streaming na sequência – modelo já bastante praticado pela Netflix, por exemplo – e um debate interessante sobre como alcançar a sustentabilidade econômica no novo ecossistema de mídia e entretenimento. 

E, pensando nos conteúdos em si, e não só no lado estratégico do negócio, a programação também trouxe conversas sobre o futuro da não-ficção, os aspectos fundamentais da produção de conteúdos originais e a importância de contar as histórias com mais profundidade.

A busca pela virada de chave

Foram muitos os produtores, diretores, executivos de players, roteiristas e demais profissionais da cadeia do audiovisual que bateram na tecla do talento dos brasileiros e do potencial do Brasil de se tornar uma indústria gigante, de alcance mundial, ressaltando ainda o fato de sermos o segundo ou terceiro maior mercado consumidor de conteúdo para as principais plataformas globais.

Mas, hoje, o que o setor busca entender é o que está faltando para essa virada de chave acontecer. Para o Brasil seguir, por exemplo, os caminhos da Coreia no audiovisual, que conseguiu exportar suas histórias para o mundo e, assim, levar sua cultura para muito além de suas fronteiras. A maioria afirma acreditar na capacidade do País de competir globalmente, financiar as histórias que quer contar e criar uma indústria forte, sustentável e independente. Mas as mudanças necessárias e as estratégias a serem adotadas para que isso aconteça ainda não estão claras.

A próxima edição do Rio2C está marcada para o período de 27 de maio a 1º de junho de 2025.

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