EXPOCINE 2020
16/10/2020, 20:30

Netflix quer seguir ampliando investimentos em produção original brasileira

Para fechar o segundo e último dia da Expocine 2020 nesta sexta-feira, 16 de outubro, Samanta Moraes, produtora executiva do filme "Modo Avião" e uma das fundadoras da produtora A Fábrica, que assina a produção do longa, bateu um papo aberto com Adrien Muselet, diretor de conteúdo e aquisição da Netflix para o Brasil, sobre as estratégias da empresa no país.

Para abrir a conversa, Muselet logo esclareceu uma dúvida que recebe de muitos produtores audiovisuais independentes, que diz respeito ao envio de projetos para a plataforma: no caso de séries originais de ficção, é com a equipe de Maria Ângela de Jesus; para séries originais de não-ficção, o caminho é o time de Elisa Chalfon; já os filmes brasileiros, originais ou não, são coordenados por ele mesmo.


Adrien Muselet

Em seguida, a pergunta-chave: o que atrai o interesse da Netflix? O diretor respondeu: "Recebemos muitos projetos e ideias, que são coisas bem diferentes, e investimos somente em projetos. Dentro disso, buscamos argumentos nos quais existam premissas claras, desenvolvimento narrativo, personagens principais e secundários interessantes, nomes de talentos que estarão na equipe e ideia de custo. O caminho de transformar uma ideia em um projeto é importante, claro, mas o que procuramos são projetos já maduros". Muselet disse ainda que, além de clara, a história precisa ser forte, para que tenha capacidade de comunicar com o público da Netflix, que é amplo e variado. "Em relação aos talentos associados ao projeto, não precisa ter todo mundo já decidido. Até porque é difícil chegar com tudo pronto – um ou dois nomes associados a uma história forte já funciona bem. Não existe fórmula de sucesso, mas acreditamos nesses caminhos para atingir sucesso artístico e de audiência", completou.

O diretor também falou sobre diversidade: "É uma questão fundamental para a Netflix. Temos um número enorme de assinantes – são pessoas diferentes, com gostos diferentes. É só ver o nosso 'Top 10' – ele é sempre composto por filmes e séries bem distintos uns dos outros. Por isso, o desafio é manter uma diversidade de projetos que atenda justamente a essa diversidade da audiência. Nesse sentido, buscamos diversidade de gêneros, vozes e talentos, e queremos as melhores histórias dentro disso, para reproduzir as diversidades do próprio país".

Uso e importância dos dados

"Decisões criativas são feitas com base em julgamentos humanos", declarou Muselet. "O streaming não é a única mídia que tem acesso a dados e não acho que a gente trabalhe de maneira tão diferente dos produtores de TV e cinema, por exemplo. Existe um mito de que temos sistemas númericos e dados complexos que até mudam os roteiros, mas não é assim. Existe muito feeling e tomada de decisões de forma altamente subjetiva", garantiu. Segundo ele, os dados de audiência auxiliam no sentido de informar quais gêneros e talentos funcionam ou não em determinados países – mas a partir daí, as escolhas são feitas com base na qualidade.

"A qualidade de uma história não é algo que a gente consiga planilhar, não é concreto. Existem questões de preferências claras, mas elas não são muito diferentes do que você descobre acompanhando índices de audiência da TV aberta e fechada, por exemplo. O raciocínio não muda muito", reforçou. Para concluir o assunto, ele analisou: "A melhor maneira de garantir bons resultados é gastar tempo e recurso nos processos de desenvolvimento. Tentar elevar o roteiro para novas réguas de qualidade e ter longas discussões sobre elencos principais e secundários, por exemplo. Acreditamos que a qualidade da história e da execução fazem com que o filme, no final, se conecte ou não com a audiência. A magia está, de certa forma, nessa imprevisibilidade".

Modelos de contratação

A Netflix está aberta a diferentes modelos de negócio para filmes. Existem, por exemplo, os originais nos quais a empresa contrata uma produtora independente para produzir a obra que será propriedade da plataforma de forma exclusiva – é o caso de "Modo Avião", de César Rodriguez. Outro modelo que acontece com mais frequência é um filme original com roteiro que vem do próprio produtor – nesse sistema, a Netflix compra o roteiro e financia a produção. Um exemplo de longa que se desenvolveu nesse modelo foi "Ricos de Amor", de Bruno Garotti. "Recebemos o argumento do filme e achamos realmente bom; a premissa era clara e o protagonista tinha um problema sólido para resolver. Os personagens secundários também eram bem interessantes. Nossa decisão foi rápida. Com base no argumento, quisemos fazer o original", explicou Muselet.

As duas maneiras citadas acima são os caminhos para os filmes originais Netflix – mas há ainda opções para os títulos que não são originais, modelos esses que também interessam bastante a plataforma. Dentro desse leque, está a pré-compra de filme independente no roteiro. "Muita gente não sabe que fazemos isso, acham que compramos somente filmes prontos. Mas às vezes já nos interessamos pela trama somente lendo o roteiro. Um dos primeiros títulos que comprei na Netflix foi desse jeito – 'Cinderela Pop'. Já sabíamos que o projeto contava com um diretor experiente (Bruno Garotti), uma produtora de histórico sólido (Panorâmica) e um talento forte (Maísa). Compramos o filme ainda no roteiro, mas a propriedade intelectual é da Panorâmica. Ele estreou na Netflix cerca de quatro meses depois que saiu dos cinemas", contou Muselet. "Temos investido bastante nesse modelo recentemente. É interessante para o produtor porque parte da licença é usada na própria produção e, ao mesmo tempo, ele não tem sua obra independente descaracterizada", ressaltou.

Os filmes não-finalizados podem ser comprados ainda após a direção da Netflix assistir ao primeiro corte – foi assim com "Alice Júnior", de Gil Baroni, que chegou à plataforma nesta semana. Por fim, a última modalidade é a compra de filmes já prontos, de catálogo. "Sempre temos audiência para eles e essa comercialização é mais uma fonte de receita para as obras", apontou o diretor.

Interesse da Netflix no Brasil

Muselet salientou que ele é muito grande, porque além do país ser um mercado importante os resultados com as produções locais têm sido muito satisfatórios, tanto de audiência quanto de crítica – "Modo Avião", estrelado por Larissa Manoela, por exemplo, se tornou o filme de língua não-inglesa mais visto da Netflix. De acordo com a plataforma, aproximadamente 28 milhões de lares assistiram ao filme somente nas quatro primeiras semanas de seu lançamento, no início deste ano. Ele citou ainda a recém-lançada série "Bom Dia, Verônica" como outro exemplo de produção nacional que tem viajado bem fora do país.

"Em função disso, nossa tendência é aumentar cada vez mais o investimento na produção brasileira junto das produtoras independentes. Temos tido experiências excelentes e isso nos conforta para seguir apostando nessa estratégia", declarou.

Para concluir, Muselet garantiu aos profissionais do audiovisual brasileiro que, entre as vantagens de trabalhar com a Netflix, está a liberdade criativa que a empresa dá aos diretores e produtores: "Queremos continuar trabalhando assim. No caso dos filmes brasileiros, é muito importante para nós que, no final, o diretor tenha feito o filme que ele queria fazer". Outra vantagem, claro, é a visibilidade, uma vez que as obras originais costumam ser lançadas em mais de 190 territórios simultaneamente.

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