EXPOCINE 2021
17/11/2021, 20:08

Na retomada do audiovisual, regulação do streaming deve ser prioridade

Já é tradição na programação da Expocine uma mesa que propõe um debate entre produtor, distribuidor e exibidor. Nesta quarta-feira, dia 17 de novembro, a mesa em questão reuniu Mayra Lucas, CEO da Glaz Entretenimento; Bruno Wainer, dono da Downtown Filmes; e André Sturm, diretor do Petra Belas Artes e da Pandora Filmes, para um balanço deste momento "pós-pandemia" e uma discussão sobre os próximos passos do setor. 

Na abertura da conversa, Mayra Lucas falou sobre o cenário atual, marcado por dificuldades financeiras em contraponto a um bom momento criativo. "O mundo mudou totalmente e o que vemos hoje é totalmente do que víamos antes da pandemia. Todas as produções que ficaram represadas voltaram juntas, por isso estamos lidando com falta de equipamento, equipe, elenco. Houve uma demanda represada, ao mesmo tempo que muitos players chegaram por aqui. Junto disso vem a inflação que o Brasil está enfrentando – coisa que eu, como profissional, nunca tinha experienciado. Estamos tentando segurar as pontas, mas os orçamentos que fechamos antes, não fazem sentido agora. Equipamento, finalização, equipe, tudo dobrou de preço. E ainda temos três filmes de Ancine para rodar ano que vem, que não deu pra fazer antes, por falta do orçamento de protocolos e estrutura que filmar na pandemia pede. Eu não sei como vai ser para entregar esses filmes. Na parte de produção física, é essa a situação. Por outro lado, na parte de criação, estamos num momento muito bom, porque tem muito player. Antes da pandemia era outro mercado", analisou. 

Já Wainer avalia que a chegada da pandemia foi um ponto final de um ciclo, "uma vez que o setor público estava em crise absoluta, totalmente paralisado; o modelo de negócio que tínhamos até então já tinha chegado ao seu limite, com apenas um player comprando filme brasileiro naquele momento; e, aí, os cinemas fecharam". Para o distribuidor, foi simbolicamente o encerramento de um ciclo. "Estou no setor há muito tempo e já vi essa roda gigante subir e descer muitas vezes. A capacidade de reinvenção do audiovisual é impressionante; nada derruba o setor. Pra mim, passado o pânico, vejo agora que as coisas mudaram para melhor. O mais importante desse cenário é a chegada dos players. O que as plataformas querem é atrair público e já entenderam que a produção brasileira é fundamental para atrair assinantes. Estamos finalmente vendo o fenômeno da cauda longa. Até antes da pandemia, estávamos imersos na cauda curta. Agora isso abriu. Quando o cinema voltar de vez, acho que viveremos o melhor momento da história do cinema brasileiro". 

Falando em cinema, Sturm lamentou que o negócio da exibição tenha sido o mais prejudicado durante a pandemia. Ele relembrou que, mesmo durante os diversos períodos de abertura, a capacidade de ocupação dos cinemas sempre foi a mais restrita e ele foi o último a reabrir de vez, o que acabou gerando na população uma crença de que o espaço não era seguro: "Restaurantes, bares e academias estão lotados – mas, o cinema, ainda não. Sou otimista e sei que teremos uma solução, mas sofremos um prejuízo irrecuperável. Um filme como 'Marighella', em 2019, estaria fazendo três ou quatro vezes mais público. Acredito que com mais filmes estreando, uma programação cada vez melhor e investimentos de marketing, o público voltará. Afinal cinema não é só filme, é o compartilhamento de experiência". 

Urgência na regulação do streaming 

Diante do novo momento, marcado especialmente pela chegada de diversas plataformas de streaming ao Brasil, Sturm pontuou a urgência de uma regulação para esse mercado: "A maneira de atuação tem sido predatória para distribuidores e produtores. Essa falta de regras está gerando uma exploração de forma desigual. Acho fundamental que existam regras – nada exagerado, apenas para garantir que produtores tenham os direitos patrimoniais de suas obras. Distribuidores também precisam ter possibilidade de negociar e atuar nesse mercado de maneira mais consistente. E é importante que a gente garanta a existência de muitas plataformas. Deixar o mercado na mão de poucas empresas nunca dá certo". 

Como representante das produtoras audiovisuais no debate, Mayra explicou que o modelo com o qual as plataformas trabalham hoje se baseia na compra da propriedade toda – com alguns negociais às vezes inclusos pela criação do projeto: "Aí acaba a sua rentabilidade em cima do projeto. Isso vem mudando mundo afora. Acredito que os próprios players já estão trabalhando e mentalizando essa questão da regulamentação. Produtos ficar com percentual pequeno da propriedade, player investir num fundo para o setor… São diferentes possibilidades para o futuro. Acho que esse espaço de conversa está amadurecendo e também sinto nos players essa consciência. Nós, produtores, estamos sempre falando: remuneração não deve ser só pela prestação de serviço, mas também pela parte criativa – já que o produtor é responsabilizado e cobrado por ela". 

Wainer endossa a discussão: "É fundamental a regulação. Se todo mundo é submetido a uma, esse setor precisa também. Isso é prioridade máxima. Quando o streaming chegou, ele ultrapassou a figura do distribuidor e negociou direto com o produtor. Me questionei muito sobre qual seria o meu lugar – ainda estou buscando e encontrando. Acho que os produtores deviam conversar com os distribuidores e aí, sim, o distribuidor é quem conversa com as plataformas para uma melhor condição de negociação. A melhor forma de o produtor ser valorizado com as plataformas é ter o distribuidor como parceiro, que é quem negocia melhor as condições gerais dos projetos. A questão principal é sobre o controle do projeto, da propriedade patrimonial. Aí que está a chave do negócio". 

Propriedade e criação 

Sturm afirma que o modelo atual é ruim para o negócio e que "precisamos ver o mercado como um todo para que o setor tenha suas diversas possibilidades de ganho preservadas". 

E apesar de defender totalmente a regulamentação, Mayra destaca que as plataformas respeitam a liberdade criativa das produtoras. "Eu vivencio isso. Há uma troca criativa de fato. Eu sou produtora criativa e sou respeitada por isso – o que não há é uma remuneração específica". Olhando para o futuro, ela diz esperar uma rearticulação do que sempre existiu entre poder público e agentes de mercado para avançar nessas pautas. "Precisamos sair dessa situação de terra arrasada". Sturm, no entanto, rebate, e diz que já estamos a caminho de uma reconstrução de políticas públicas – e que a situação é mais otimista do que pontua a produtora da Glaz. "Vejo positivamente o momento e estou otimista. Em relação à regulação do VoD, já existe um debate. Não estou aqui para falar bem do governo, e sim para falar que tem coisas acontecendo a partir da pressão que nós exercemos nos últimos tempos. VoD é prioridade – se não agirmos rápido, a situação se consolidará de uma maneira que será difícil reverter. Precisamos de uma regulação simples, aplicável e retornável, isto é, que garanta os direitos patrimoniais para as empresas brasileiras". 

Comentários

2 Comentários

  1. Avatar Tom Cavalieri disse:

    Regulação só vai espantar os tais players que vocês querem atrair.
    Vejo produtores realizando excelentes projetos para Netflix, Disney, Amazon, e todos ganhando. Se o distribuidor não tem mais lugar, tem que se reinventar. Com o perdão da palavra, virou carroça. Não da para parar no tempo. Subsidiar algo ultrapassado. Temos a chance de crescermos o mercado audiovisual e torná-lo um business de verdade, e não ficar pedindo intervenções de agências e do governo que só atrapalham. Sejam quais forem.

  2. Avatar Valdir Marques de Souza disse:

    Resumindo: querem obrigar as plataformas a passar qualquer porcaria, como os canais a cabo sao obrigados a passar conteúdo nacional, chegando ao cúmulo de ter o mesmo filme passando em três canais ao mesmo tempo.

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