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Para Marchesini, animação necessita investimentos em formação e políticas públicas próprias

Reynaldo Marchesini (Foto: Maysa Sena Saraceni)

Nesta segunda-feira, dia 17 de junho, Reynaldo Marchesini, da Flamma, estreia sua nova série animada “Lupi e Baduki” na Max, com todos os episódios disponíveis de uma vez, e na Discovery Kids, com exibições de segunda a sexta-feira, às 8h30. O produtor, que tem mais de 20 anos de experiência em animação, com projetos como “Sítio do Picapau Amarelo” e “Princesas do Mar”, assina a criação, a produção e também integra o time de roteiro da nova série. 

Em entrevista exclusiva para TELA VIVA, Marchesini falou sobre o atual momento da animação produzida no Brasil. “Em 27 anos trabalhando com isso, vi ciclos e oscilações. Em 2004, quando fundei a Flamma, o cenário era muito diferente. Com seis meses de produtora fiz o pitching de ‘Princesas do Mar’, que acabou estreando na Discovery Kids em 2008, naquele período que marcou o nascimento de grandes séries de animação brasileiras. Mais tarde, com a Lei da TV Paga, veio o boom de estúdios e séries. É bom resgatar que, na época, falavam que as animações brasileiras não teriam a mesma audiência das séries de fora. E provamos, com série atrás de série, que não era bem assim. Que há muito talento na animação do Brasil”, relembrou. 

“Agora, não só a animação, mas todo o audiovisual está num momento incerto, de fusões, reduções, recomposições. Mas estamos num ponto melhor do que em 2004, claro. Hoje, são muitas empresas e estúdios brasileiros com experiência. Lá no começo da produtora, quando estava prospectando parceiros para ‘Princesas do Mar’, acabei animando a série na Espanha porque o Brasil ainda não tinha grandes estúdios com portfólios de projetos. A quantidade de estúdios que temos hoje é um bom indicador de que as coisas melhoraram – temos mais maturidade, profissionais, empresas. Apesar da turbulência, acredito que vamos encontrar o caminho para voltar a produzir animação como antes”, opinou. 

Para Marchesini, um dos grandes diferenciais e vantagem competitiva da animação brasileira é o olhar estético. “Trabalhamos muito com prestação de serviço, claro, porque isso ajuda financeiramente, mas também temos esse DNA de criar personagens, histórias e universos. E um humor que é muito nosso. Temos uma leveza. É do nosso estilo cultural sermos mais leves, animados e alegres. E isso imprime positivamente nas obras”, analisou. 

Capacitação e formação  

O produtor se coloca como um forte defensor de que o conhecimento seja compartilhado ao máximo e busca fazer isso por meio de palestras e cursos, por exemplo. Nesse sentido, a partir de um mapeamento da animação brasileira feito no Anima Mundi de 2019, que identificou que o País tem muitos estúdios, mas faltam produtores executivos, especializados em gestão e negócios, ele ajudou a criar a pós-graduação em produção executiva criativa em artes digitais na Faculdade Méliès, reconhecida como melhor faculdade de animação da América Latina, da qual ele é um dos professores. “Não defendo um único caminho – acredito que tem muito auto-didata que vira artista. Mas gosto do estudo e acho que precisamos valorizar o ambiente acadêmico. A animação brasileira está num estágio muito melhor do que dez, 20 anos atrás. Mas precisamos fazer mais em capacitação e educação”, reforçou. 

Políticas públicas 

E, para além dos investimentos em formação, Marchesini defende que, dentro da discussão política, é importante que existam editais voltados para fomento e produção de animação: “Essa mistura de animação e live action em editais é um pouco injusta para a animação – por conta dos limites de orçamento, por exemplo, e até pelos próprios pareceristas, que nem sempre têm o conhecimento necessário em animação para avaliar os projetos. O caminho passa por fomentarmos produção, desenvolvimento e formação”. 

Cartela de projetos 

Outra mensagem importante que Marchesini diz querer deixar para o mercado é sobre não ter apenas um projeto de animação, e sim vários. “Isso foi uma coisa que, na evolução da Flamma, eu aprendi. Enquanto estava fazendo ‘Princesas do Mar’, fiquei tão focado em produzir episódios para duas temporadas que, quando acabou, me perguntei o que ia fazer. Mas tinha que ter feito essa pergunta antes”, reconheceu. 

Ele contou que, na Flamma, um dos modelos é o de projeto próprio, isto é, aqueles criados internamente. Dentre eles, está um longa-metragem chamado “Miguel e Juca”, criado por Marchesini, e que será sua primeira experiência com produção de longa. A história é sobre um anjo da guarda que está terminando sua formação na Cidade das Nuvens e quer virar anjo da guarda de criança. Na Terra, tem uma criança que nenhum anjo quer cuidar, porque dá muito trabalho – e é justamente com ela que esse novo anjo vai parar. “Será um desafio como produtor para mim e como obra para a Flamma”, definiu. 

Outro caminho está nos projetos de iniciantes. “Tenho recebido esses projetos para negociar contratos de opção – modelo em que, durante um tempo, a Flamma fica com os direitos para desenvolver, investir nesses projetos, levar para os mercados para fazer pitching e tentar viabilizá-los. É um meio de termos projetos de autores diferentes e uma estratégia para montar uma carteira de projetos, para de repente encontrar aquele player que quer determinado tema, formato ou estética e ter uma cartela para apresentar. Acho importante ter projetos para entender como atender às demandas dos players”, afirmou. E ele reiterou como é fundamental manter a visão do criador: “O audiovisual é um trabalho coletivo. É claro que vão mexer no seu projeto. Mas você tem que trabalhar a essência, aquilo que você não abre mão. Senão, perde-se justamente aquilo que faz os outros olharem para o projeto e acharem que ele é único”.  

IA e novas tecnologias

Por fim, o produtor falou sobre a chegada das ferramentas de inteligência artificial no audiovisual – o que, obviamente, também impacta a animação. “O surgimento de qualquer tecnologia traz reflexões éticas. Quando surgiu o computador para animar foi assim também. Mas, para mim, a discussão é se ferramentas que otimizam os processos tirarão empregos ou direitos de alguém. Sobre inteligência artificial, ainda não tenho uma opinião 100% fechada, acho que tudo é muito novo, mas me parece que o mais importante é que não seja esquecido se a IA se beneficia da criação humana sem remunerar os criadores humanos. Essa é a diferença em relação a outras ferramentas. É uma questão que não pode ser esquecida. Acho que as ferramentas podem ser positivas – especialmente se reduzirem nossos cronogramas, orçamentos e nos tornem mais competitivos – desde que não firam questões autorais”, concluiu. 

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