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7º Prêmio ABRA de Roteiro usou o entretenimento para refletir sobre a dura realidade do mercado

7º Prêmio ABRA de Roteiro (Foto: Angélica Goudinho e Giovana Frange)

A 7ª edição do Prêmio ABRA de Roteiro foi diferente das anteriores: pela primeira vez, a cerimônia promovida pela Associação Brasileira de Autores Roteiristas foi realizada na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, no início do Rio2C 2024, evento que aconteceu entre os dias 4 e 9 de junho. Com a apresentação de Karine Teles e Nathalia Cruz, a premiação anunciou vencedores em 15 categorias, além de homenagear o escritor Benedito Ruy Barbosa, reconhecendo sua contribuição para o setor através das décadas.

O time da ABRA optou por fazer do evento um momento de celebração e reflexão, mas também de entretenimento, diversão e emoção. Diferentemente da maioria das premiações mais tradicionais, a ideia era um evento curto, dinâmico, roteirizado e sem falas institucionais. 

André Mielnik (Foto: João Atala)

“Fiquei muito surpreso com a repercussão do prêmio. É uma coisa muito nova para o Rio2C. É o primeiro prêmio que absorvem dentro do evento, trabalhando como anfitriões de certa forma. Tivemos dúvida se o prêmio passaria incólume, se ficaria mais dentro dos nossos associados e da parte do mercado envolvida nas obras indicadas. Mas a repercussão foi enorme. Foi um prêmio muito grande, de uma magnitude diferente das edições anteriores, especialmente pelo cacife que dá estar no Rio2C, com toda a presença do mercado dentro do evento e ao seu redor”, falou André Mielnik, produtor e diretor artístico do Prêmio ABRA e presidente da ABRA, em entrevista exclusiva para TELA VIVA. A expectativa do presidente é que a premiação se torne um marco do calendário de eventos do audiovisual, contando especialmente com essa parceria do Rio2C, que tem esse espaço fixo e de destaque na agenda anual do setor. “É pegar carona no rabo do foguete. Conseguimos, desta vez, criar awareness e consciência do prêmio. Para o próximo ano, o desafio é ampliar esse conhecimento e, junto do Rio2C, fazer uma entrega bacana e ainda maior para o público”. 

Mielnik destacou que o cuidado que a equipe envolvida teve na execução da premiação foi o que mais repercutiu. “Queríamos uma premiação leve e divertida, sem o peso que alguns prêmios têm de serem longos, maçantes. Nos esmeramos no roteiro para colocar nele tudo o que precisávamos dizer. Mas sem precisar me colocar lá, como presidente da ABRA, para fazer uma fala mais institucional”, apontou. O ambiente de leveza acabou por dar liberdade aos premiados – eles subiram no palco mais à vontade para fazer suas manifestações, que refletiram a dura realidade do mercado, com falas sobre desvalorização dos profissionais, ausência de créditos e interferências no trabalho dos criadores, entre outras questões. “O Prêmio pra gente é um palanque para o roteirista, não para a associação. Esse é o eixo da premiação, a nossa proposta. Então quando o roteirista sobe no palco, é natural que tudo o que estamos vivendo juntos apareça”. 

Mikael de Albuquerque, por exemplo, premiado na categoria Melhor Roteiro Adaptado pelo trabalho em “O Sequestro do Voo 375” apontou como os roteiristas são excluídos dos próprios filmes que escreveram, não sendo chamados para pré-estreias, fotos de equipe e demais eventos, por exemplo, além dos problemas com o nome escrito errado nos créditos – ou simplesmente esquecidos. Já Rodrigo Vasconcellos, parte do time de roteiristas de “A Magia de Aruna”, premiado como Melhor Roteiro Infanto-Juvenil, relatou que a equipe teve uma desagradável surpresa ao perceber que não recebeu os devidos créditos pelos episódios escritos, tendo acontecido uma omissão e diluição dos mesmos. “Precisamos pensar em mecanismos de regulação e conferência de creditação”, sugeriu. Paulo Vieira, que subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Roteiro de Variedades pelo programa “Avisa Lá que eu Vou”, fez um chamado para que a indústria deixe os criativos criarem. “Eles precisam acreditar na nossa cabeça. Pegar na nossa mão e confiar que o que faremos vai ser sucesso. E nós, roteiristas, precisamos nos sindicalizar e mostrar nossa força diante de tudo isso”. 

Desenvolvimento do roteiro 

Por trás desse roteiro leve e divertido, e ao mesmo tempo certeiro e direto, está a roteirista Letícia Bulhões Padilha, que trabalha na indústria audiovisual desde 2011 e tem uma trajetória como autora voltada para a comédia. Dentre seus trabalhos recentes, foi parte da equipe de desenvolvimento e roteiro da série dramédia “A História Delas”, do Star+, e do sitcom “No Corre”, do Multishow e Globo. “Foi muito importante fazer parte dessa premiação que estava ‘no olho do furacão’, num momento do mercado em que as coisas estão mudando e ninguém sabe ao certo para onde estamos indo. Nesse cenário, é fundamental colocar luz no roteiro, que é onde começam as histórias. O Prêmio foi importante para o mercado entender a potência de tudo isso e da necessidade de valorizar nosso trabalho, que deve ser creditado e bem remunerado. Não adianta a grua, o drone, o VFX se não tem roteiro, uma história, uma narrativa”, declarou. 

Padilha contou que André, o diretor da ABRA, a procurou com essa ideia de um roteiro para a premiação que fosse mais voltado para o entretenimento. “Nesse momento tão instável do mercado, era importante colocar alguma leveza no que está acontecendo para não parecer um grande manifesto. As pessoas foram até lá assistir ao prêmio, então ele precisava ser divertido. Por eu ser uma roteirista que majoritariamente trabalha com comédia, e ter ainda especialização em late night comedy, o André sabia que eu poderia oferecer esse tipo de conteúdo para a premiação”. 

Letícia Padilha (Foto: Arquivo Pessoal)

A roteirista é membro da ABRA, já foi conselheira da Associação, concorreu ao prêmio em outras edições e conhece roteiristas de muitos lugares do Brasil e de diferentes momentos de carreira e situações. “Por estar em contato com bastante gente, gosto de aproximar essas pessoas. Acho que consegui falar o que muita gente está querendo dizer. Colocamos as pautas da diretoria, mas não como um manifesto. É ‘a novalgina no suco de laranja’. O desafio era descobrir como brincar com a classe num momento em que ela está vulnerável do jeito que está, de uma forma que não parecesse que estamos cegos, que não vemos a situação. Mas não temos o direito de tirar a esperança de ninguém. A ideia era se juntar, celebrar e reunir forças para lutarmos juntos pelos nossos direitos”, analisou. 

Diante dessa missão, Padilha bebeu na fonte das premiações americanas, como o Emmy e o Oscar, por exemplo, para entender como isso era feito lá fora. “Somei essa pesquisa ao conhecimento que já tenho desse tipo de formato e ao que aprendi na especialização. Em premiações, é importante que as piadas sejam objetivas, curtas, direto ao ponto e conectadas umas com as outras. Depois dessa análise, percebi que nos Estados Unidos eles conseguem brincar consigo mesmo mais do que no Brasil. O caminho foi trabalhar na base de um ‘sincericídio’ quase que inocente, isto é, de forma que as pessoas pensassem ‘caramba, eu falaria isso num grupo do WhatsApp ou na mesa do bar. Então fui dando um jeito de colocar nossas pautas ali”, detalhou. 

A roteirista acrescentou que buscou colocar “verdades inesperadas”, de forma que as pessoas se surpreendessem com o roteiro da premiação porque não esperavam que essas coisas seriam ditas ali. “Fiquei feliz com a oportunidade e também lavei a alma. Por meio da identificação, quis despertar nos roteiristas essa sensação de urgência de nos unirmos para lutar pelos nossos objetivos. Era importante que eu conhecesse meu público para saber quais são as dores e quais seriam as esperanças. A ideia foi puxar um pouco a orelha do mercado naquilo em que existe uma cegueira, na minha visão. Um certo tabu. Não se fala dos problemas de forma declarada. E precisamos colocar luz”, assumiu. A cerimônia está disponível na íntegra no canal do YouTube da ABRA.

Demandas urgentes da classe

Mielnik enfatiza que, dentre várias outras questões, é essencial que o roteiro seja consagrado no mercado. E, na sua visão, o Prêmio ABRA ajuda um pouco nesse sentido: “O roteirista precisa ter seu reconhecimento dado a todo momento. Foram muito importantes as falas dos premiados nesse caminho”. O presidente aproveitou para comentar o atual momento. “Caminhamos hoje enquanto indústria para um criador cada vez mais minorizado diante da expectativa de máximo resultado e custo. Tudo está previsível, e existe um nível de aprisionamento de premissas e ideias. Precisamos ficar atentos a isso enquanto roteiristas e indústria. Nesse momento de regulação – que entendo ser triste que ainda não tenhamos uma boa regulação, mas feliz que não temos uma regulação ruim – precisamos nos construir, nos organizar como classe para lutar pelos nossos créditos. Tal qual o sindicato americano faz. É fundamental que os roteiristas tenham espaço de arbitragem dentro do processo. Nosso quinhão do processo criativo”. 

Para ele, os roteiristas foram precarizados de forma constante no mercado, mas os últimos três ou quatro anos foram especialmente difíceis. Como associação, a ABRA cresceu bastante, mas ainda há a necessidade de avançar nos posicionamentos e atuar com mais organização, pensando na possibilidade de sindicalização. “Hoje, a ABRA se encontra numa situação ótima para isso. Além de termos muitos associados, temos representação em mais de 20 estados. Isso é pré-requisito para a possibilidade de sindicalização, que traz a capacidade de, junto da classe, arbitrar créditos, fiscalizar contratos e etc. A vantagem, no final, não é a questão corporativista, e sim a organização da sociedade civil e do mercado”, afirmou. Mielnik lamentou o cenário atual, onde roteiristas de carreiras relevantes não conseguem trabalhar. “A demanda reduziu muito depois desse processo de máxima eficiência seguido pelo corte das redundâncias das plataformas. Os roteiristas estão perdendo oportunidade e vontade. É urgente nos organizarmos enquanto categoria”. 

Já Padilha acredita que dentre as demandas mais urgentes a serem resolvidas está a questão dos residuais, isto é, os valores que os roteiristas deveriam receber – da mesma forma que os músicos recebem, por exemplo – pela obra reexibida. “Não temos aposentadoria garantida. Pouco se fala do etarismo do mercado. Pouco se inclui roteiristas que têm mais tempo de trabalho por não quererem pagar o valor que eles valem. As pessoas precisam ter respiro financeiro. Até pra poder estudar, se especializar, descansar. Se tivermos esse dinheiro caindo na conta de obras em que já trabalhamos e estão sendo reexibidas em qualquer que seja a janela, já temos um respiro para poder criar”. 

Outra urgência que ela aponta é a regulamentação do VOD para que se possa fortalecer a produção independente. “Não podemos ficar reféns das empresas. O entendimento que elas têm sobre direitos autorais é diferente do nosso. Ainda precisamos explicar o óbvio”, finalizou. 

Premiados 

Confira a lista de vencedores do 7º Prêmio ABRA de Roteiro:

Roteiro de Comédia / Paulo Gustavo 
“O Clube dos Anjos” – Angelo Defanti 

Melhor Roteiro de Série de Comédia 
“Encantado’s” – Renata Andrade, Thaís Pontes, Chico Mattoso, Antônio Prata 

Melhor Roteiro de Reality 
“Ilhados com a Sogra” – Rico Perez, Sarah Rodrigues, Vivian Alano, Daniella Fernandes, Jéssica Reis, Aline Furlanetto, Juan Gutierres, Mayara Barros

Melhor Roteiro de Variedades 
“Avisa Lá que eu Vou” (temporada 1) – Luiza Yabrudi, Pedro Alvarenga, Paulo Vieira, Daniela Ocampo

Melhor Roteiro de Obra Infanto-Juvenil 
“A Magia de Aruna” – Maíra Oliveira, Ana Pacheco, Bruna Trindade, Rodrigo de Vasconcellos, Leandro Matos, Clara Meirelles, Índigo, Henrique Breia e Szolnoky, Raysner de Paula 

Melhor Roteiro de Curta-Metragem 
“Infantaria” – Laís Santos Araújo 

Melhor Roteiro de Documentário 
“Retratos Fantasmas” – Kleber Mendonça Filho 

Melhor Roteiro de Série Documental 
“Vale o Escrito” – Fellipe Awi, Ricardo Calil

Melhor Roteiro de Série de Drama 
“Cangaço Novo” – Mariana Bardan, Eduardo Melo, Fernando Garrido, Erez Milgrom

Prêmio da Crítica 
“Marte Um” – Gabriel Martins 

Melhor Roteiro de Telenovela 
“Vai na Fé” – Rosane Svartman, Renata Corrêa, Renata Sofia, Pedro Alvarenga, Fabricio Santiago, Mario Viana, Sabrina Rosa

Melhor Roteiro Adaptado 
“O Sequestro do Voo 375” – Lusa Silvestre, Mikael Faleiros de Albuquerque

Melhor Roteiro de Filme Original 
“Marte Um” – Gabriel Martins 

Roteirista Homenageado 
Benedito Ray Barbosa 

Prêmio Abraço 
Nathália Cruz 

Prêmio Roteirista do Ano 
Thaís Pontes e Renata Andrade 

Ficha Técnica do 7º Prêmio ABRA de Roteiro

Direção Artística
André Mielnik & Valéria Motta

Coordenação de Produção
Thais Olivier

Receptivo
Vana Medeiros

Diretor de Cena
Camilo Pellegrini

Roteiro
Letícia Bulhões Padilha

Apresentadoras
Karine Teles
Nathalia Cruz

Direção Musical e Arranjos
Arthur Braganti

Músicos
Arthur Braganti
Jéssica Zarpey
Thiago Rebello

Cantora
Bel Barbosa

Assistente de palco
Hanna Miranda

Estilista
Nai Albuquerque

Maquiagem
Vanessa Andrea

Camareira
Bebel Rosa

Criação, Identidade Visual e Motion Design
Vento Studio: Fernanda Kassar e Priscila Lopes

Design e Produção Gráfica
Alex Marinho

Pesquisa
Bernardo Tavares Rosa

Assessoria de Imprensa
Caisa Reis

Fotografia
Angélica Goudinho
Giovanna Frange

Cinematografia
Chamon Audiovisual
Direção de Imagens: Eduardo Chamon
Imagens: Emanoela Magalhães, Guga Dannemann, Nibya Gonçalves e Ruda Capriles

Produção Executiva
Cris Carvalho
Thálita Oliveira

Direção de Produção
Denise Fuzer

Financeiro
Marcela Macedo

Secretaria Administrativa
Hellen Farias

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