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Diretora de programação do FAM celebra volta ao presencial e destaca a potência do cinema latino-americano

Há 26 anos realizado pela Associação Cultural Panvision, o Festival Internacional de Cinema Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM voltou a ser presencial após dois anos realizado de forma online devido à pandemia. As atividades da edição deste ano começaram na última quinta, 22, e vão até quarta, 28. 

“É um alívio e uma felicidade estar de volta ao presencial. Foi um trabalho até então no escuro, com esperança, tentando não vislumbrar metas tão grandes. O próprio mercado de exibição sente que as pessoas ainda estão retornando aos poucos para o cinema. É um processo difícil, que como toda ação de cinema no Brasil é de risco. Temos que reconquistar o público a cada momento, a cada dia. Mas é maravilhoso ver os filmes de volta na tela grande, na experiência coletiva”, disse Marilha Naccari, Diretora de Programação do FAM, em entrevista exclusiva para TELA VIVA. “Tivemos uma sessão com curtas feitos com os povos indígenas e a comunidade veio ao cinema para assistir. Foi muito emocionante ver um público que normalmente não está nesses espaços, principalmente se vendo na tela. Isso faz parte do que acreditamos para o FAM, o ‘FAM de todos’. De todas as perspectivas e lugares. É gratificante ter novamente essa troca pessoalmente – isso é o principal”, completou. 

No período mais recente da pandemia, a produção audiovisual retornou à ativa – mas deixou evidente algumas diferenças. “Tivemos produções que puderam atender a um padrão de protocolo e continuaram. Desenvolveram para grandes plataformas de streaming, por exemplo. Mas voltamos a ter uma divisão de quem pode e quem não pode produzir. Uma concentração, na verdade, que ficou mais exacerbada durante a pandemia, teve essa condição”, analisou Marilha. “Por outro lado, o setor de animação, que pode se adaptar mais fácil por conta do seu próprio desenho de trabalho, salvou muitos profissionais, que foram migrando e puderam se descobrir também nesse meio”, mencionou. “Além disso, tivemos uma ação extremamente importante para pessoas que não tinham todo esse acesso, que foi a Lei Emergencial Aldir Blanc. Dessa lei, pudemos ver resultados de realizações mais modestas, mas que trazem uma palavra muito sincera. Vimos uma diversidade de cidades que antes não produziam e a migração de artistas de outras áreas, que viram no audiovisual uma forma de sobreviver. Essas pessoas trouxeram formas de se expressar na tela que são essencialmente necessárias”, observou a diretora. 

Mostra Especial Lei Aldir Blanc 

Produções que contaram com o recurso emergencial da Lei ganharam neste ano uma mostra própria e inédita na programação do FAM. “Temos essa mostra justamente porque vimos a riqueza dessas produções. Havia a necessidade de mantermos sempre viva essa troca de olhares de outros realizadores, outras perspectivas. Por isso cresce nosso número de mostras a todo momento. Precisamos pensar diferente para continuar evoluindo na sociedade e no ecossistema do audiovisual”. 

Marilha contou que a ideia de criar a Mostra Aldir Blanc surgiu na época em que foram abertas as inscrições para outro festival da Panvision, o Curta Jacarehy, que acontece no interior de São Paulo no primeiro semestre do ano. Lá, a proposta é ter filmes feitos fora das grandes capitais: “Quando a gente colocou essa condição, a oferta dos filmes que recebemos já mudou completamente em relação à estética, linguagem e temática. E veio muito conteúdo que estava com as marcas da Aldir Blanc. Já ficou ali uma semente para começarmos a trabalhar nisso. Depois, fizemos o FALA São Chico, em São Francisco do Sul, que é voltado para documentários, e mais uma vez notamos uma forte presença de produções que contaram com recursos da lei. No FAM, a Mostra Aldir Blanc seria inicialmente só para produções catarinenses, mas expandimos a oferta por conta da demanda dos realizadores. Recebemos projetos do Brasil inteiro. A mostra está linda. Decidimos, até de forma audaciosa, exibir todos os curtas juntos. Isso dá, já na hora da sessão, espaço para diálogo – sobre quem fala, de que condição fala, quanto tempo teve para produzir… Foram filmes feitos em um curto espaço de tempo, em momentos já de crise, que aqui são exibidos ao lado de curtas de todo o Mercosul que estão sendo trabalhados há anos e foram, na maioria das vezes, feitos por realizadores com mais experiência. Mas, mesmo assim, são filmes que continuam conversando”. 

Mostra Curtas 

Outra novidade do FAM 2022 é que as sessões de curtas recebem nomes. São eles: Permanecer no Tempo-espaço, Viver em Sociedade, Estamos Aqui, A Arte Enquanto Ação, Reaja no Agora e Somos Ímpares. “Foram temáticas escolhidas com o objetivo de chegar numa linguagem próxima do público. Queremos chamar a atenção no mais básico do ser humano, para que entendam que o audiovisual está sempre presente, você vê na tela o que está na rua. A ideia é que o público consiga se reconhecer por meio dessas temáticas, mesmo entre aqueles que acham que não gostam de cinema latino-americano”, explicou Marilha. “O cinema tem essa construção de si na imagem porque o audiovisual, hoje em dia, está em tudo. É a linguagem mais fácil de se comunicar com o mundo inteiro – e temos sempre que estar nos comunicando”. 

Diversidade de reação 

Neste ano, o FAM contou com diferentes modalidades de ingressos, com opções gratuitas, pagas e outras para grupos e ONGs, por exemplo. “É muito legal nessa volta pensar numa descentralização, numa mudança. Isso é importante até para que possamos ver uma diversidade de reação na plateia. Nossos costumes são muito repetidos dentro do nosso grupo social e precisamos expandir isso para ver que eles não são naturais, e sim construções sociais, e que podemos ter outras reações. É mais acolhedor para todos”. 

Temáticas 

Marilha contou que, no ano passado, houve uma grande leva de temas relacionados à pandemia permeando as produções audiovisuais. Este ano, a temática ainda continua, mas de outras maneiras. “Acho muito importante que eles continuem, ainda que de forma mais fina, sem estar no ponto central do filme. A gente não pode ignorar o que aconteceu. É uma história muito recente e muito fácil de ser repetida”. 

No último dia de evento, na quarta, 28, haverá uma sessão do “Conversas FAM de Cinema” intitulada “O Cinema Urge”, com os filmes “O Ciclope”, de Guilherme Cenzi e Pedro Achilles; “Mãe Solo”, de Camila de Moraes; “O Elemento Tinta”, de Luiz Maudonnet e Iuri Salles; e “O Pato”, de Antonio Galdino – todos foram vencedores dos últimos festivais promovidos pela Panvision. “É uma pungência temática, com obras que falam de maternidade solo, da mãe preta, da luta periférica, discriminação, encarceramento, relação familiar, violência doméstica… Fecha o ciclo de toda a nossa programação. Temos momentos felizes, e celebrar o cinema, mas não esquecemos tudo o que passou. Hoje, falamos de uma forma reflexiva, de ação pela mudança. Não é um apontamento das dificuldades sem uma ação de mudança. Isso foi algo muito forte nos filmes que recebemos. Antes, tinha mais denúncia. Agora, que a denúncia foi feita, é a vez da ação”, definiu. 

Outro ponto que a curadoria levou em conta foi manter filmes com mais identidade latino-americana, contando histórias a partir da perspectiva de dentro do continente. “Nosso momento é muito urgente. Queremos expandir, claro, falar dessas perspectivas ao redor do mundo. Mas aqui é a parte central da nossa articulação. A ferida esteve muito mais aberta nos últimos anos de pandemia, de governos que não contribuíram com a arte, com o ser humano. O valor do ser humano diminuiu muito. Todo o resto só vai melhorar quando esse valor aumentar”, concluiu. 

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