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Setor está otimista com a reabertura dos cinemas, mas critica ausência de direcionamento único para o país

Nesta quinta-feira, 15 de outubro, data que marca a reabertura das salas de cinema em São Paulo após o período de fechamento como medida de contenção ao avanço da pandemia do novo coronavírus, produtores, distribuidores e exibidores se reuniram em um painel da Expocine 2020 – que neste ano acontece de forma totalmente virtual – para debater os grandes desafios que o setor cinematográfico brasileiro passou e ainda está passando frente à pandemia de Covid-19. A conversa foi mediada por Pedro Butcher, professor da ESPM e colaborador do Valor Econômico, e contou com a participação de Luiz Gonzaga de Luca, da Cinépolis; Walkiria Barbosa, da Total Entertainment; e Felipe Lopes, da Vitrine Filmes.

Gonzaga reafirmou que a abertura das salas de São Paulo e Rio de Janeiro é fundamental, reforçando que não há possibilidade de lançamento de filmes significativos sem essas praças, mas criticou um mal entendimento existente acerca do risco de contágio nos cinemas. “Estou vendo conteúdos totalmente contrários à realidade. Existe um ranking do New York Times feito junto da agência Reuters que divide em dez níveis de gravidade a reabertura de determinados espaços. Enquando o cinema está no nível seis, academia está no oito, bar no nove e igrejas e templos no dez mais. A Europa toda abriu os cinemas desde julho mas, aqui, falta um direcionamento do Governo Federal, que repercutiu nessa desinformação. Não existe um protocolo local, só documentos locais. Por isso tantos disparates”, afirmou. O exibidor disse ainda que a abertura, que já estava sendo dificultada por conta das restrições e medos do público, passa também por um problema de falta de conteúdo: “Países que recuperaram plateia, como China, Coreia, Japão, Alemanha e França, fizeram isso com conteúdo nacional. No Brasil, já estamos vendo um efeito contrário. Produtores não estão oferecendo conteúdos para essa reabertura. O que comprova novamente que houve desorientação total em todas linhas – de diálogo com o governo, com produtores e distribuidores”. Para ele, o momento próximo ainda é grande incerteza: “Mesmo que se recupere plateia, a dificuldade ainda vai existir para os exibidores. O fechamento dos cinemas não cessou nossas despesas. Continuamos pagando condomínio, IPTU, energia elétrica. Hoje, o endividamento do exibidor brasileiro gira em torno dos 500 milhões de reais em relação ao período que permanecemos fechados. A recuperação deve levar dois ou três anos, pressupondo aqui uma retomada forte. Mas no meio se fala em fechamento de 25% das salas”.

Lopes, que fala do ponto de vista de um distribuidor independente, também lamentou o período de fechamento: “A Vitrine é uma distribuidora focada especialmente em filmes nacionais que, antes da pandemia, costumava lançar, em média, dois filmes por mês. Isso significa que uma pausa de março a outubro já seria uma questão por si só, mas com expectativas que vão sendo quebradas, no sentido de mudanças constantes de datas de reaberturas e medidas que não envolvem o Brasil inteiro, fica ainda pior”, explicou. “A instabilidade política já vinha afetando a cultura nacional de forma ampla, e a pandemia veio para somar nessa crise. Estamos passando por todo esse momento de forma que eu até me surpreendo”, completou. Lopes reforçou ainda quão prejudicial para o desenvolvimento do setor foi essa indefinição de reabertura, com datas que iam mudando semana a semana: “Trabalhamos com pré-planejamentos de lançamento, mudando datas toda hora. É inviável pensar em planejamento e gestão desse jeito. É um vai e vem diário”. Como exeplo de um trabalho feito durante o período, ele citou “Três Verões”, de Sandra Kogut, que estava prestes a estrear quando os cinemas fecharam – àquela altura, toda a campanha de lançamento já estava nas ruas, com investimento próprio da distribuidora, sem investimento de Fundo Setorial. “De repente, a gente não podia mais lançar. Num primeiro momento, foi desesperador. Depois, fizemos lançamento no drive-in e já fomos para outras janelas como alternativa. No final, entendemos que, para o filme, foi a melhor coisa, pensando na estrutura como um todo. Vimos nessa alternativa um resultado melhor com base em todo o investimento que já havíamos feito”, contou.

O distribuidor concordou com Gonzaga no sentido de que o grande problema é a falta de uma unidade federal e coesão: “Estamos à mercê de poderes locais e isso se soma às crises que já vínhamos enfrentando nas políticas culturais. Se antes já existisse uma preocupação com o setor, o cenário seria diferente, esperaríamos um apoio. Mas não. Estamos nos reinventando a cada dia, pensando em todos os formatos possíveis, entendendo as especificidades de cada projeto e torcendo para tudo melhorar”. A Vitrine tem, em seu portfólio, o recente sucesso “Bacurau”, que levou 700 mil pessoas para o cinema, e que Lopes usa para exemplificar a força e a importância que as salas físicas de cinema têm para os conteúdos audiovisuais. “Espero que os cinemas retomem com força logo. Precisa existir uma articulação do setor e do serviço público para entender a seriedade e o tamanho do nosso mercado”, ressaltou.

A produtora Walkiria Barbosa, por sua vez, disse que o grande problema da pandemia em termos de produção é que “como não temos política econômica clara no país, perdemos grandes oportunidades que a produção local poderia estar suprindo”. Ela discorreu: “Temos filmes em fase de pós-produção que deveriam estar sendo estimulados, projetos que deveriam estar sendo acelerados para ocuparem o mercado em diferentes janelas. Faltou uma visão estratégica de como fazer do limão uma limonada. Perdemos um bonde que poderia significar uma mudança de paradigma para o conteúdo nacional”. Nesse sentido, ela citou a França, que aumentou o consumo de conteúdo local nos cinemas na reabertura das salas. “Por outro lado, nós, como produtores, também temos que repensar o modelo de produção e sermos ainda mais criativos do que já somos. Cada vez mais se faz necessária a união entre os três segmentos da indústria – quando um ganha, todos ganham. Quando um perde, todos perdem. É fundamental ainda uma política de colaboração cada vez maior entre os próprios produtores, no sentido de troca de informação e experiência, e também dos produtores com os prestadores de serviço”, defendeu.

Comportamento do consumidor

Questionados sobre um possível receio do público nessa reabertura, os três concordaram que a questão não será um problema. Para Barbosa, inclusive, a maioria dos brasileiros não está “nem aí”: “No Rio, por exemplo, é só fazer sol que as praias ficam lotadas. Quando tivermos vacina, então, aí é que as pessoas vão querer sair mesmo, e o cinema é uma grande opção. Na Europa e na Ásia as pessoas estão indo ao cinema. Acho que, quando as coisas se normalizarem, a ida ao cinema pode ter uma procura maior do que tinha ida. Gonzaga, por sua vez, trouxe o dado de que 70% do público afirma que voltaria ao cinema em até três meses. “O desejo de ir ao cinema é muito forte. Trabalho há 45 anos com isso e já vivi diversas crises, mas a indústria cinematográfica sempre se renova”, pontuou. Para Lopes, por fim, o público de cinema é muito fiel, e por isso ele se diz otimista em relação a essa volta, ainda que de forma gradual: “Acredito em uma subida de público constante e não acho que a pandemia vá mudar em definitivo essa relação das pessoas com o espaço da sala de cinema”.

No entanto, Barbosa chama atenção para outra questão: as possíveis mudanças nas preferências e escolhas dos espectadores. Ela explicou: “Durante a pandemia, o público fortaleceu o hábito de ver muita coisa pelo streaming e falada em diferentes idiomas, então pode ser que isso influencie nos seus gostos de consumo. Pode ser que as pessoas queiram ver mais filmes de outros países, por exemplo, em línguas que não sejam português ou inglês. A gente se acostumou a ver coisa boa em outros idiomas”. Para ela, o setor já deveria estar pesquisando a respeito disso, a fim de entender o que o consumidor está vendo no streaming e de que forma isso pode se enraizar nas escolhas para o cinema.

De qualquer forma, a substituição de janelas não está em debate. Gonzaga reconheceu que a pandemia aflorou discussões no mercado, inclusive acerca do crescimento do streaming, mas que não estamos falando de uma coisa substituindo a outra. “Acho muito difícil existir um instrumento que substitua a sala de cinema como exibidor de filme. Teremos novas configurações, sim, mas o cinema seguirá sendo mais importante”, concluiu.

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