FÓRUM DA MOSTRA
24/10/2018, 19:59

"Nem todos os livros são adaptáveis para o cinema.", diz diretor Jorge Furtado durante Mostra de São Paulo

"Nem todos os livros podem ser adaptados para o cinema.", disse o diretor e roteirista Jorge Furtado durante o primeiro dia do II Fórum da Mostra, braço de programação da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em encontro realizado nesta quarta, 24/10, em São Paulo, Furtado esteve ao lado dos também roteiristas Marie-José Sanselme, Sérgio Tréfaut e Roberto Gervitz para discutir os processos de adaptação de obras literárias para o cinema. Durante a programação da Mostra, ele apresenta "Rasga Coração", longa-metragem inspirado na peça homônima de Oduvaldo Vianna Filho.

Diretor de comédias relevantes na cinematografia nacional, como "O Homem que Copiava" (2003) e "Meu Tio Matou um Cara" (2005), além da série "Doce de Mãe" (2014), com a atriz Fernanda Montenegro, Furtado foi categórico ao elencar os principais desafios nesse processo de transposição de um livro para um filme. Para ele, há termos, metáforas e verbos que são especialmente presentes na literatura e que, na hora de serem transferidos para um roteiro, tornam o processo praticamente impossível. "No roteiro, toda informação precisa ser audível ou visível, ao contrário da literatura. Verbos proibidos para os roteiristas por conta de sua impossibilidade de filmagem, como 'pensa', 'lembra' e 'esquece', aparecem muito nos romances. A literatura nos remete ao fluxo de consciência dos personagens, o que é muito difícil de imprimir no cinema.", discorreu. "Enquanto um escritor pode apenas dizer que o personagem está em seu quarto, o roteirista precisa saber como é esse quarto: que tamanho tem, quais móveis, de que cores etc. Todas essas decisões precisam ser tomadas obrigatoriamente. Enquanto o cinema cria imagens, a literatura cria imaginação.", completou. Para Furtado, "Filmar um livro é como desenhar uma música. É possível, mas cada um fará de um jeito. É algo subjetivo, sem regras ou certo ou errado.".

Para Roberto Gervitz, que está na Mostra com uma cópia restaurada de "Feliz Ano Velho", baseada no best seller de Marcelo Rubens Paiva, o próprio termo "adaptação" é problemático na hora de descrever uma versão cinematográfica de um livro. "Prefiro dizer que foi inspirado em tal obra. Adaptado é um termo muito fechado e eu particularmente não acredito que exista adaptação fiel.", explicou. Ele, que escreveu e dirigiu outros dois filmes baseados em livros – "Jogo Subterrâneo" (2005), de Julio Cortázar, e "Prova de Coragem" (2015), de Daniel Galera, argumenta que cinema e literatura são linguagens completamente diferentes e que, por isso, um filme, ainda que inspirado em determinado livro, deve ter vida própria. "O diretor não pode depender da pessoa ter lido o livro ou não para entender a história. Por isso, colocar referências diretas ao livro é de pouca importância. O livro deve ser apenas ponto de partida.", definiu. "É ruim ser extremamente fiel à obra que inspirou o filme, justamente por conta dessa questão de diferenças de linguagens.", acrescentou Furtado.

A francesa Marie-José Sanselme e o português Sérgio Tréfaut também estão com adaptações em cartaz na Mostra de Cinema – ela com "Uma Carta Para um Amigo em Gaza" e "Um Trem em Jerusalém" e ele com "Raiva", filme baseado no livro "Seara de Vento", de Manuel da Fonseca, 1958. Para Marie, uma das maiores vantagens desse trabalho de adaptação é inserir elementos interessantes da realidade dentro de situações ficcionais, com a possibilidade ainda de trabalhar em outro espaço ou contexto. "Sou a favor de adaptações da maneira mais clássica possível. Para mim, trata-se de trazer uma parte da literatura que te tocou de algum jeito e dar a ela algo mais.", concluiu.

Por fim, Tréfaut também deixa suas dicas: "É necessário jogar na simplicidade da história, sem explicar pro espectador aquilo que ele já está vendo nas imagens, com cuidado de não inserir diálogos didáticos, descrição de personagens e uso de adjetivos, recursos comuns na literatura.". Para ele, o segredo de um bom trabalho nesse sentido é retornar a essência do que te motivou a transformar um livro em filme, ou seja, qual o significado daquela história e o que ela é capaz de transmitir.

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