Tendência para séries e documentários é trazer mais melodrama e criações ousadas 

Julia Duailibi, Lucas Paraizo, Raphael Montes, Juan Jullian, Monica Almeida e Susanna Lira (Foto: Globo/ Fabio Rocha)

No painel "Séries e docs – Novas Narrativas", realizado durante o Festival Acontece, nos Estúdios Globo, na última quinta-feira, 11 de abril, a jornalista Julia Duailibi recebeu um time de autores e diretores para falar sobre o futuro das séries e documentários. O grupo discutiu a razão do sucesso desses formatos e as estratégias para que o Brasil tenha produções cada vez mais atrativas.

O autor Raphael Montes (série "Bom Dia, Verônica", da Netflix, e novela "Beleza Fatal", da Max) disse que o objetivo tem que ser cada vez mais tentar contar boas histórias, e contou que, quando pensa no conceito de uma boa história, pensa nas histórias que gosta como espectador, que são aquelas que instigam e provocam. "Por isso, quando escrevo, gosto de trazer o gancho, a virada, a reviravolta. Para prender o espectador mesmo. E precisa ter bons personagens, que o público gosta e torce. Identificação é importante. O escritor tem que estar na rua, ouvir conversas, para contar histórias que estão no nosso dia a dia. Nesse sentido, precisa ter empatia com o outro, e ouvir visões e experiências diferentes", avaliou. 

E falando especificamente sobre séries, para Montes, existe uma tendência cada vez maior de trazer o melodrama: "Ainda no formato de série, com ritmo de virada que a estrutura pede, mas com essa coisa do melodrama, que é muito das novelas brasileiras, que pega pela emoção. E podemos usar essa emoção para tratar de temas importantes. Você pega o espectador pela emoção do melodrama e, aí, traz essas questões". Como exemplo, ele citou a própria "Bom Dia, Verônica", que tem uma protagonista que conquistou o público e partiu daí para abordar temáticas como violência doméstica e machismo. 

Para Juan Julian, autor da nova série de terror original do Globoplay "Reencarne", o futuro das produções deve ressignificar clichês que já consumimos por muito tempo. Nesse novo projeto, o autor "sequestrou" signos clássicos do terror e trouxe para o cerrado brasileiro. "É uma série protagonizada por personagens que normalmente não estão nesses lugares. Eu, um autor negro e gay, sou fã de terror. Então para mim foi particularmente especial contar uma história que se apropria desses clichês, mas brinca e perverte isso em algum lugar. Se temos a necessidade de ver mais Brasil na tela, precisamos ampliar o perfil inclusive de quem está com a conta na mão. Se queremos um retrato mais genuíno, real, acolhedor e, consequentemente, mais lucrativo, precisamos de presenças plurais na frente e atrás das câmeras", defendeu. 

Susanna Lira, documentarista ("Jesse e Colombo", "Para os que ficam"), concordou: "Quem está do outro lado precisa ter sensibilidade com o criador. Abrir portas. É importante que os executivos estejam atentos – que eles ousem com a caneta para gente ousar na criação". Lira, que tem larga experiência na direção de documentários, também falou sobre as particularidades do gênero. "Não tem como fazer um bom filme ou série documental se você não tiver acesso aos personagens da história. Eu fiquei meses negociando a série do Casagrande, garantindo a ele que faríamos algo à altura da sua jornada. É necessário criar relações profundas, sinceras e de confiança com esses personagens. E explicar que, no filme, você não vai atacá-lo, mas precisará falar a verdade. Temos que ser sinceros a quem documentamos", explicou. 

Monica de Almeida, diretora de gênero e auditório da Globo, responsável pela docussérie de sucesso "Vale o Escrito – A Guerra do Jogo do Bicho" (Globoplay), também tem essa percepção nos documentários, e citou ainda o uso de ganchos próximos da ficção para contar uma história real como um caminho possível: "Quando penso na história que quero contar, tento descobrir qual seria a melhor maneira de conta-la. Mas normalmente isso se impõe, aparece pra você. Foi assim com 'Vale o Escrito'. Inicialmente era uma série sobre o jogo do bicho. Quando comecei a pesquisar, encontrei novos elementos. A história real parecia novela. Eu falava 'não é possível que isso aconteceu'. No fim, não é sobre jogo do bicho, e sim sobre famílias. Essas coisas aparecem. São histórias. Uma linha tênue entre ficção e realidade. Isso é o que mais me interessa". 

Já Lucas Paraizo, autor de "Sob Pressão" e "Os Outros", falou que, em relação às séries, é o conceito do projeto que o faz ter segurança de que ele poderá se desdobrar em novas temporadas. "Sob Pressão", por exemplo, trazia o conceito "a saúde está doente", que é algo que atravessa as diversas temporadas que a série teve. "Um dos fôlegos desse projeto é que ele teve propósito, além do conceito. Claro que é entretenimento, mas se somamos tudo isso, temos relevância e profundidade", opinou. "Os Outros" também é uma série de conceito forte: "O que acontece quando todo mundo acha que tem razão?". No momento, o autor escreve a terceira temporada da produção. 

Resposta aos algoritmos 

O mercado de produção de séries trabalha muito com base nos algoritmos, que mostram o que o público está gostando de assistir e, assim, buscam apontar caminhos e ditar tendências. Montes não se diz contrário ao uso dos algoritmos. "É um diálogo que estabelecemos com a audiência. Saber quem é o meu público e do que o público gosta me ajuda a contar a melhor história. Acho que quem não gosta dos dados é porque os usa mal. Dados servem para orientar. Eu tenho uma ideia e, à medida que tenho acesso aos dados e informações, repenso o caminho e as escolhas", afirmou. No início do trabalho com "Bom Dia, Verônica", o autor não tinha muitos dados. Da primeira para a segunda temporada, recebeu algumas informações da plataforma. "A partir daí, consegui determinar algumas coisas. Eu já tinha uma história para a segunda temporada, mas fiz adaptações com base nos dados. No fim, a audiência da segunda temporada foi três vezes maior do que a da primeira. O algoritmo é amigo do autor – contanto que o autor não tenha medo dele", finalizou. 

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