REACH
17/11/2020, 22:28

Perspectivas para o cinema brasileiro passam pela retomada e reformulação das políticas públicas

Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem sofrido as consequências de mudanças estruturais nas políticas direcionadas à indústria audiovisual no país enquanto, paradoxalmente, a produção nacional vem sendo celebrada ao redor do mundo nos principais mercados e festivais. Diante deste cenário, a mesa "Perspectivas para o Cinema Brasileiro" realizada na noite desta terça-feira, 17 de novembro, pelo Reach – Questões de Audiência, braço de programação do BrLab dedicado ao mercado, reuniu o exibidor Adhemar Oliveira, a produtora Sara Silveira e o cineasta Eryk Rocha, com a moderação do produtor Ivan Melo, para debater o assunto. A conversa contextualizou a pandemia no meio do cinema, reforçou a necessidade da retomada das políticas públicas voltadas à produção audiovisual e refletiu sobre o futuro do setor.

Reflexões do atual cenário

"Além de todos os problemas que já carregávamos, neste ano ainda estamos vivendo uma situação única, que é a pandemia. Eu não sei como agir diante dela – nem meus pais enfrentaram uma pandemia para me contar como foi. Essa questão de ficar parado, receoso e com medo do invisível – isto é, só vemos as consequências do problema, e não o problema em si – é triste e angustiante", declarou Adhemar Oliveira na abertura do painel. À frente do Espaço Itaú de Cinemas, o exibidor reforçou como a área da exibição é frágil – considerando tanto o momento atual quando o contexto da globalização: "O cinema é um local de reunião de pessoas e, desde a globalização, o mundo caminha para um 'simesmeamento', isto é, um cenário onde o indivíduo se basta diante do coletivo. Pela tecnologia, desenvolvemos uma união à distância. Eu, particularmente, não gosto disso, mas talvez as crianças já gostem. Acho que esse é um dos elementos que mais estão colocados para o futuro, a relação dos homens com outros seres por meio da máquina. Nós, no cinema, sempre fomos colocados próximos ao fim. Eu não tenho medo de pensar no fim, todas as coisas têm um. Mas brigo para que este fim não seja agora".

Para ele, é hora de refletir. "Apesar de triste, é um momento transformador, pela quantidade de experimentações que estamos tendo. E-commerce, home office, telemedicina, o próprio streaming… São elementos novos interessantes, mas devemos entender até onde vamos conseguir com eles desenvolver um novo padrão. Nesse sentido, me pergunto como será a sala de exibição no pós-pandemia. Eu ainda não tenho essa resposta, mas sei que as coisas estão mudando e vão mudar ainda mais. A respeito disso, não tenho dúvidas nem amarras. Gosto de pensar em como as coisas podem se desenvolver melhor em relação do trabalho de produção, criação e difusão. Os caminhos são vários e eu não fecho nenhuma porta. Tento experimentar. Nós, em conjunto, vamos definindo. Esse é um dos momentos mais difíceis da minha vida profissional, no qual está complicado ver o horizonte. Mas temos que começar a jogar luz nesse futuro", refletiu Oliveira.

Relevância da memória e importância das políticas públicas

"Hoje, mais do que nunca, nossos rostos são políticos. E é vital não perdermos isso. A conversa e o encontro nos mantêm vivos", declarou Eryk Rocha. Para o produtor, o momento não é só de constatar a tragédia, mas de tentar abrir fendas, expandir realidades e abrir outros caminhos, e sem perder a motivação, que é algo que ele define como algo muito importante para não perdermos de vista numa época como essa. Rocha fala ainda sobre pensar na nossa história. "É hora de analisar de onde a gente, do cinema brasileiro, veio. Os ciclos, as crises, quem veio antes da gente e abriu espaço – e muitas vezes na porrada, com suor e luta, dentro de realidades como golpes militares, ditadura e repressão. É muito importante lembrarmos da memória – não de um jeito saudosista, mas como potência e construção de futuro", ressaltou.

Nesse sentido, Rocha cita a situação da Cinemateca para exemplificar como a memória do cinema brasileiro se encontra gravemente ameaçada. "Estão tentando nos tirar o passado e, quando nos tiram isso, cortam nosso elo com a nossa própria história. Por outro lado, quando interrompem e paralisam o trabalho da Ancine e o FSA, interrompem a nossa existência e a continuidade dos nossos cinemas. Nos tiram o passado e o futuro – o que nos resta é só o presente. Esse é o momento em que estamos", avaliou. O produtor reforça que nos últimos 20 anos o audiovisual brasileiro passou por uma verdadeira explosão a partir de políticas públicas que viabilizaram uma série de filmes e que abriram caminhos para realizadores e realizadoras, produtoras e produtores existem. No Brasil profundo, nas periferias, nas favelas e fora do eixo Rio-São Paulo, inclusive. "É essencial entendermos a força e a importância do audiovisual. Não é à toa que nosso cinema é alvo do governo, isso não é aleatório. O cinema e a arte, de modo geral, têm poder. Hoje, mais do que nunca, o mundo é audiovisual. A paralisação da Ancine é parte de uma estratégia geopolítica e é importante termos isso claro para entender do que estamos falando hoje", afirmou.

É consenso entre o setor a necessidade urgente da retomada dos trabalhos da Ancine – "não existe cinematografia forte na história do mundo sem políticas de Estado consistentes" – disse Rocha. No entanto, é reconhecida a carência de mudanças na maneira como essas políticas eram conduzidas. "É necessária a retomada, mas não exatamente ao que era antes, e sim amplificando e repensando a Ancine. Precisamos olhar para as linhas de produção e exibição numa perspectiva mais democrática, para quem não tem acesso ao cinema e não pode produzir cinema no Brasil. Também fazendo umaa revisão crítica. Não podemos reproduzir a Ancine tal qual ela era antes, e sim desenvolvendo-a ainda mais. O que existia antes era uma base sólida, que permitiu o desenvolvimento do mercado. Agora, é hora de aprimorar, e não acabar com o que foi feito. Estamos em estado de calamidade, com produtoras fechando e profissionais desempregados. Políticas fortes do Estado são importantes principalmente para pequenas e médias produtoras, que ainda não tem uma trajetória consolidada. É fundamental que essas políticas sejam retomadas e repensadas, democratizando o cinema para quem produz e para quem vê", defendeu.

A produtora Sara Silveira concorda que nenhum cinema existe sem política pública e argumenta: "O governo quer nos calar. Cinema é voz e educação, e é justamente isso que ele não quer. Por isso nós temos que continuar na luta. Eles não vão se movimentar para qualquer ato em benefício do audiovisual. Essa perversidade que acontece na Ancine é proposital. A agência caminhava a par e passo nos últimos anos conosco – com erros, claro, mas estava ao nosso lado. Essa Ancine de hoje não é aquela que conhecíamos. Ela ia num bom caminho, com políticas voltadas aos negros, de gênero. Vínhamos de 12 anos de um governo que nos deu amparo, nos proporcionou crescimento. Aí, ao lado da parada do governo atual, premeditada e objetivada, veio a pandemia". Silveira contou que tem mais dois projetos engatilhados com o dinheiro de períodos anteriores – um para filmar e outro para lançar – mas que, depois, não sabe exatamente o que vai fazer, e que é a primeira vez que ela se encontra em uma situação assim. "O que eu vou fazer depois? Fechar as portas, não. Eu vou lutar. Do lugar dos meus privilégios, claro, de estar na maior cidade do país, com artefatos institucionais, como a Spcine, que também está na luta, além de Institutos, como o Projeto Paradiso, e os canais de televisão e streaming. Peço que olhem para nós, para esse cinema estancado, para que alavanquem nossas produções enquanto estamos esse ostracismo governamental contra a cultura. Eu estou correndo atrás de trabalho porque não quero ficar sem. Temos que arrumar saídas", observou.

Ainda dentro do tema das políticas, Oliveira disse que já olha para o cinema brasileiro com aquela sensação de que tudo é cíclico, no sentido de que avança, avança, e depois volta para trás. E que justamente por isso seria fundamental analisar quais pontos podem ser corrigidos: "Todo o nosso trabalho de reconstrução, desde o fim da Embrafilme, desenvolveu o mercado, mas criou-se uma dependência do Estado. Fizemos muita coisa, mas temos que pensar no futuro levando isso em conta. Hoje, é possível ver o progresso e o desenvolvimento – criamos muitas mídias, atacamos em várias frentes, montamos uma rede de profissionais antigos com novos, ampliamos o parque exibidor… Não podemos perder nada disso. Esse momento de pandemia fez a gente pensar. Tem esse lado de reflexão, de olhar mais afundo. Nos leva a olhar no espelho". O exibidor faz questão de reforçar que não é contra as políticas públicas, claro, mas acredita que estejamos pouco desenvolvidos em relação aos alicerces da sociedade civil que garantam esses mecanismos. "Não dá pra mudar de governo e ele poder mexer nisso a bel-prazer. O Estado não pode passar por cima, e a fragilidade histórica que eu vejo é nesse sentido. Sou a favor da sociedade civil como defensora dessas políticas públicas", explicou.

Perspectivas para o futuro

Oliveira ainda comenta que a produção nacional cresceu não só por conta das políticas públicas, mas também pelas novas possibilidades que a tecnologia trouxe: "É claro que a existência da tecnologia não automatiza o desenvolvimento, tem que casar com a vontade das pessoas. Aponto que o caminho, daqui pra frente, seja deixar mais coisas na mão da sociedade civil. Acredito em novas tecnologias e práticas para que a produção cultural e cinematográfica provoquem o desenvolvimento da nossa gente". Para ele, a gente privilegia a sala de cinema porque ela é mais antiga, tem a boa visibilidade da tela grande, mas que hoje a produção direto para outras plataformas é válida. "A sala de cinema é muito cara e é um modelo estruturado que talvez vá servir apenas a uma parte do mercado. Na reabertura, estamos percebendo que não adianta só ter a sala – precisa da bomboniere, por exemplo. Não é só ingresso do filme. Por isso não sei se a sala vai sobreviver nesse modelo ou se ele precisará ser reinventando. Brinco que nós, exibidores, também precisávamos ter um serviço de delivery", pontuou.

Rocha concorda e destaca: "É preciso pensar também na exibição e na distribuição como vetores fundamentais. Repensar nosso espaço social e como o audiovisual está inserido nele. O momento é fértil para ampliarmos e experimentarmos novas possibilidades, principalmente do espaço social do cinema. Como podemos voltar a nos ligar ali?". O produtor, que recentemente lançou o filme "Breve Miragem de Sol" diretamente pelo Globoplay, relatou que a experiência foi positiva, no sentido de usar uma plataforma popular e de massa para atingir um público amplo, formado inclusive por taxistas e enfermeiras, que são os personagens principais da trama. "Isso é interesssante não como vitória minha, mas como caminho para escoar produções brasileiras onde haja uma pluralidade de obras, propostas e histórias. Sabemos que estamos na era das plataformas – já estávamos antes da pandemia e estamos ainda mais agora. É um dos caminhos possíveis, mas não pode ser o único. Não podemos ficar dependentes das grandes plataformas, precisamos ampliar isso. Senão estaremos reproduzindo, correndo o risco de padronizar cada vez mais nossa linguagem e arriscar menos no cinema que a gente ama", alertou.

Por fim, Rocha finaliza: "Quando políticas públicas são desmontadas, existe uma repressão da nossa lingagem. Cinema é uma experiência única. É preciso lutar por uma real diversidade, e ela só vai existir num país como o nosso com políticas públicas sérias. É assim que eu vejo, principalmente para as novas gerações e pessoas menos favorecidas. É uma questão central, estética e política. Esse governo vai passar, mas nós continuaremos criando e transformando".

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