EXPOCINE 2020
15/10/2020, 23:13

Produtoras criticam a "política de resultados" proposta pela Ancine e afirmam que ela vai contra a diversidade do audiovisual

As produtoras audiovisuais brasileiras Mariza Leão (Morena Filmes), Andrea Barata Ribeiro (O2 Filmes), Carla Esmeralda (Esmeralda Produções), Vânia Lima (Têm Dendê) e Viviane Ferreira (Odun Filmes) se reuniram nesta quinta-feira, 15 de outubro, em um painel da Expocine 2020 – que neste ano acontece de forma totalmente virtual – para debater, com a mediação de Debora Ivanov, a grave crise que a indústria de conteúdo nacional enfrenta desde muito antes da chegada da pandemia, que passa por uma fragilidade do setor, represamento de recursos e mudanças de regras, entre outros problemas. O grande consenso do bate-papo foi uma posição contrária à chamada "política de resultados" proposta pela Ancine – as representantes do setor defendem que uma análise baseada em ingressos e número de bilheterias não abraçaria o setor como um todo e impactaria especialmente os pequenos produtores e as minorias.

Mariza Leão, que completa em 2020 45 anos de atuação no mercado à frente da Morena Filmes e que traz no currículo produções audiovisuais para o cinema com destaque de bilheteria, como a franquia "De Pernas Pro Ar", disse que não se pode entender o presente sem fazer um raio-X do passado, senão há o risco de uma política utilitária, em busca de "resultados", entre aspas, como ela fez questão de reforçar. Nesse sentido, Leão aponta que a crise começou em 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Roussef, que deu início a um processo que ela chama de saída das serpentes da chocadeira, fazendo uma menção ao filme "O Ovo da Serpente" (1977). A partir daí, vieram acusações aos até então diretores da Ancine, seguidas de afastamentos. "Anunciavam o audiovisual do futuro, havia um fluxo de caixa enorme. Mas eu percebi que o R$1,2bi não era para fazer a política que tinha sido desenhada, e sim uma concentração de recursos. Foi quando eu me coloquei contra. Um ano depois já não existia mais Ministério da Cultura. O raio-X final é que hoje temos diretores da Ancine que não foram sabatinados no Senado Federal. Uma Agência que em vez de explicar a natureza da nossa atividade compartilha determinações como se fossem ordens expressas.", analisou. Para a produtora, o setor já chegou em 2020 asfixiado: "Muito antes da pandemia, já tínhamos um 'covid' no audiovisual, que era a não liberação de recursos, contratos e processos. Só conseguiremos enfrentar essas serpentes se nos juntarmos ao restante da sociedade civil brasileira em todas as áreas fundamentais – meio ambiente, saúde, educação… Nossa luta não pode ser técnica, só de normativas e regulações. Ela é política".

Andrea Barata Ribeiro, à frente da O2 Filmes, concorda com Mariza no que diz respeito ao já existente esforço de desmonte do setor bem antes da pandemia, passando por dificuldades em relação a simples liberações de projetos já encaminhados. Dentro desse tema, ela é categórica: "Na O2, desistimos de trabalhar com isso. Não de lutar, pois continuamos junto aos Sindicatos, mas desistimos de contar com esse apoio – que é um dinheiro capitaneado no próprio setor, inclusive – importante ressaltar". Sendo assim, Barata explica que a empresa sobrevive passando a produzir para os players, como Netflix, Amazon, Globo e HBO, o que é positivo, mas deixa os filmes mais autorais, com DNA de festival, que levam o audiovisual brasileiro para fora, "no acostamento": "Não conseguimos movê-los sem o apoio do Fundo Setorial e das leis que tínhamos e que hoje, apesar de ainda existirem, na prática não funcionam mais. Claro que sou uma produtora de 30 anos de história e que isso me dá uma facilidade – tenho portas abertas – além do braço de publicidade, que ajuda também. Mas fico pensando no tamanho do buraco para as produtoras menores, que têm um ou dois anos de mercado. Nos últimos anos, surgiram tantas novas produtoras diversas, com vozes plurais. Agora elas estão sendo tolidas e deixadas de fora de formas de financiamento e incentivo que foram colocadas justamente para expansão e crescimento do mercado. Lamento muito a situação. Foram 20 anos de construção jogados no lixo".

Vânia Lima, da Têm Dendê, de Salvador-BA, traz exatamente esse ponto de vista de uma produtora de fora do eixo – que ela reforça ser uma produtora "nacional", e não "regional", como a maioria ainda diz. Lima ressalta que apesar da Têm Dendê ser hoje uma empresa de grande porte, essa não é a realidade da maioria das produtoras baianas, que são pequenas. Ela lembra ainda a determinação do FSA em 2011 de que 30% dos recursos seriam usados no CONNE (regiões do Centro-Oeste, Norte e Nordeste) e como isso foi fundamental para o ingresso de novas produtoras, o que se traduz em novas histórias. "Nós fomos chegando, nos aproximando dos recursos, crescendo e tomando voz. Deixamos de ser cenário para ser narrativa. Escrevemos, produzimos e dirigimos. E isso só foi possível porque o Brasil levou a sério sua política pública tanto os grandes quanto para os pequenos produtores. Fico impactada quando o presidente da Ancine fala em medir o que 'deu certo'. Nós somos a prova do que 'deu certo'. Não dá para falar só de grandes filmes e grandes players – não é isso que vai fazer da gente referência. A política precisa agregar diversidade", defendeu. Lima segue questionando: "Será que essa nova política, que pretende fazer uma avaliação do que funciona e do que não funciona, vai abraçar todo mundo? Que métricas serão essas? Estamos falando do uso de recursos nossos, que vieram de arrecadação de Condecine. Não deveria, então, o setor ser convidado a discutir esses valores? O mercado precisa se estabelecer na sua condição de potência, com independência, e não ideologia. A cada governo que entrar vamos mudar os filmes, os valores, as pessoas? Precisamos defender um audiovisual diverso, inclusivo e abrangente, e não um audiovisual que mude a cada gestão".

Viviane Ferreira, uma das sócias da Odun Filmes, afirmou que o contexto atual exige uma tomada de decisões coletivas de maneira muito firme e clara. "Como fazedores de cultura, isso nos coloca em posição de muita importância para a construção de sociedades saudáveis, e me dói muito ver discussões de políticas públicas entendendo o que a gente faz apenas como uma via de ganhar dinheiro. Não é sobre isso. Não é sobre a produtora que ganha mais ou menos. É sobre a possibilidade de inventar novos mundos, caminhos possíveis. A nossa existência hoje só é possível porque existia um caminho possível nas políticas públicas afirmativas", declarou. A Odun foi uma das principais empresas que possibilitaram que jovens realizadores negros tivessem seus primeiros curtas produzidos, circulando em festivais e em processos de distribuição, por exemplo. "Não podemos confundir governo com Estado. Temos um governo que cessou o diálogo com a sociedade civil, mas a sociedade civil não pode cessar o diálogo com o Estado", concluiu.

Já Carla Esmeralda falou do ponto de vista do mercado e definiu: "Não há mercado sem políticas públicas. O Rio Content Market, por exemplo, não teria acontecido se a Lei 12.485 não tivesse sido criada. Se estamos falando em resultados, resultados também vêm da política pública. Resultado é política pública funcionando. A produção nacional tem hoje nomes expressivos mundo afora que vieram de regiões como o Norte e o Nordeste do país. Não tem nem como questionar a importância dessas políticas".

E qual seria a métrica de resultado de uma boa política pública?

Para Lima, analisar o valor de uma política indutora de desenvolvimento para a cultura – e não só para o audiovisual – passa por abrangência, diversidade e autonomia. "É deixar que as pessoas possam contar as histórias que elas desejarem, do seu lugar de fala e das suas existências", completou. Ferreira acrescentou: "Quanto mais diversos estiverem tendo acesso aos recursos, mais significa que está dando certo – como indígenas, pomeranos do Espírito Santo, ciganos da Ilha de Itaparica na Bahia, a população negra, as mulheres… Isso é um medidor de sucesso". Para a sócia da Odun, alinhado a essa questão, quando olharmos para as produções pela perspectiva de multiplicidade de gêneros e formatos, é possível ver métrica de sucesso. "O que avalia para além disso é tentativa de aprisionamento do nosso poder de invenção", definiu.

Por fim, Mariza Leão reflete: "Temos que entender se hoje temos uma Agência que trabalha por um setor ou um setor ameaçãdo por uma Agência. São duas coisas completamente diferentes. Um roteiro não se traduz orçaritariamente no resultado final com uma soma de valores matemáticos – há má-fé nessa interpretação. É da beleza dos encontros de quem realiza audiovisual que chegamos a uma obra concluída, e que não necessariamente é um resultado matemático. Não dá para engessar resultados como se fosse uma engenharia. Estão querendo nos transformar em algo que não somos, e não podemos nunca deixar de dizer quem somos. Mesmo que isso não interesse a eles".

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