Artigo do leitor
17/09/2020, 21:52

"3%" deixa um legado duradouro de inclusão nos bastidores

POR TIAGO MELLO*

Em 2018, visitei o Instituto Criar, organização local sem fins lucrativos que ensina estudantes menos privilegiados sobre cinema, para selecionar o primeiro grupo de participantes a ir ao set de 3%. Eles fizeram parte do Boost the Base, um programa criado pela Netflix que ensina e prepara jovens de comunidades periféricas para posições iniciantes na produção audiovisual.

Os brasileiros não costumam se ver representados nas telas e eu estava animado para ajudar a mudar isso. Porém, eu me lembro de ter questionado a mim mesmo: "Estou fazendo uma série que critica o processo de seleção e aqui estou eu selecionando pessoas…". Então, ao invés disso, contratei todos. Isso gerou muita emoção e até algumas lágrimas.

Este espírito de inclusão tem servido de motivação desde o lançamento de 3% em 2016, primeira série original brasileira da Netflix e a primeira série do estreante showrunner Pedro Aguilera. Mas também queríamos amplificar outras novas vozes. Assim, nas temporadas três e quatro, pudemos apoiar duas iniciativas locais da Netflix para que 3% pudesse servir como campo de treinamento para outros futuros cineastas e profissionais de uma produção audiovisual.

Como parte do programa Boost the Base, treinamos e empregamos quase 30 jovens, principalmente das comunidades negra, feminina e LGBTQ+, em vários departamentos, incluindo arte, produção, maquiagem e figurino.

Entre eles está Jacqueline Viana, que trabalhou em 3% como maquiadora e cabeleireira. Jacqueline disse que se sentiu "realizada" por ter aproveitado sua experiência com cabelos crespos no set ao trabalhar com o elenco negro da série. Para a produção, foi um grande benefício ter alguém com essa experiência no set, e isso ficou claro na tela.

Para a quarta e última temporada de 3%, que estreou em 14 de agosto, também ajudamos a conduzir o programa Shadowing. A iniciativa permite que promissoras diretoras negras possam observar sets de filmagem e as prepara para trabalhar em outras produções.

Recém-formada pelo Instituto Criar, Jéssica Queiroz pôde acompanhar três diretores diferentes durante um período de quatro meses. Uma editora interessada em dirigir, Jéssica foi capaz de aprender em primeira mão sobre efeitos especiais, pós-produção e escolha de elenco.

Recrutar essas jovens vozes de fora dos caminhos normais foi um processo gratificante e emocionante para aqueles de nós que trabalharam na série. Ter estagiários de muitas origens diferentes ajudou a expandir minha visão de mundo como produtor e como artista – aprendi pelo menos tanto com eles quanto eles aprenderam comigo.

É também por isso que tem sido tão gratificante ver os participantes desses programas, como Jéssica, avançarem em suas carreiras. Depois de 3%, ela dirigiu a série Fim de Comédia da CineBrasil TV, e recebeu propostas para dirigir episódios de outros programas. Ela também foi convidada por duas produtoras para começar a desenvolver outras séries. "O Shadowing me deu a garantia de pelo menos ter a oportunidade de fazer parte do processo de contratação para lugares aos quais eu não poderia ter acesso", disse ela. "Isso me permitiu ter acesso a um mercado fechado".

A premissa de 3% sempre foi a de criar mais igualdade no Brasil, então o fato de termos sido capazes de fazer um trabalho semelhante nos bastidores é poderoso. A série pode ter chegado ao fim, mas permanece na Netflix para que os futuros fãs possam descobri-la. E nossos esforços para criar uma rede mais diversificada e inclusiva no Brasil também terão, esperamos, um impacto duradouro.

*Produtor-executivo de 3% e sócio da Boutique Filmes

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