Radiodifusão prestará serviço de transmissão de dados nos Estados Unidos

Os CEOs Chris Ripley, da Sinclair; Pat LaPlatney, da Gray Television, e; Adam Symson, da Scripps, com o editor da TVNewsCheck, Michael Depp.

A evolução para a próxima geração da TV nos Estados Unidos insere os radiodifusores em uma categoria de mercado que não costuma ocupar, a de transmissão de dados. A capacidade de transmitir dados de um para muitos – já chamada pelos radiodifusores de datacast – permitirá o uso de seu espectro de frequência para outros tipos de serviços, muitos deles em um modelo de negócios B2B. Ou seja, a radiodifusão poderá usar o seu espectro para prestar serviços para outras indústrias com a implementação do ATSC 3.0.

No NAB show 2023, que acontece nesta semana em Las Vegas, um painel reuniu os CEOs de três das maiores redes regionais dos Estados Unidos – Gray Television, Sinclair Broadcast Group e The E.W. Scripps Company. Adam Symson, presidente e CEO da Scripps, destacou que, embora o serviço de datacast não esteja sempre relacionado à mídia, ele servirá para ajudar a bancar os grupos regionais e fomentar o jornalismo local. "Não podemos permitir que aconteça com a TV local o que aconteceu com os jornais. E isto vai acontecer se não tivermos a oportunidade de inovar", diz, lembrando que a categoria de jornalismo impresso teve seu valor destruído pelo digital.

Uma das principais apostas é o setor automotivo. Atualmente, os automóveis mais avançados precisam de atualização constante de software, o que é feito através da rede wifi do proprietário do veículo. A adesão à conexão à rede wifi, no entanto, é baixa. A alternativa, até agora, para a indústria automotiva seria equipar os carros com modems conectados à operadoras móveis, Neste modelo, no entanto, a atualização ficaria muito custosa, uma vez que o uso de dados é contabilizado por cada conexão. Com o datacast, é possível fazer uma transmissão única para todos os veículos de uma mesma localidade.

Segundo Symson, ainda há algumas questões a serem resolvidas, mas as conversas com os fabricantes estão avançadas, bem como os testes que mostraram que a tecnologia é muito eficiente. O acordo com a FCC para criar normas para novo padrão envolve o uso desta tecnologia, para garantir que as redes adotem sistemas compatíveis entre si. Além disso, os grupos começam a negociar parcerias para garantir uma cobertura mais ampla do datacast. As montadoras, lembra Symson, não estarão dispostas a fragmentar a contratação do serviço. "Há dez anos você comprava um carro e seu relacionamento com a montadora acabava ali. Hoje elas têm a obrigação de seguir atualizando os veículos. Se elas procurarem eficiência nessa relação com o consumidor, o ATSC 3.0 será a melhor alternativa", diz Symson. Segundo executivo, a próxima fase será construir o marketplace para este tipo de serviço.

Embora o uso na indústria automotiva seja o mais promissor, os executivos concordam que não deve ser o primeiro a criar um fluxo de receita para os grupos de mídia. Isto porque a ampla adesão depende do tempo natural de substituição da frota de veículos.

Chris Ripley, presidente e CEO do Sinclair Group, aposta em outras indústrias adotando a tecnologia rapidamente, criando um fluxo de receita para os radiodifusores já em 2024. Para ele, as companhias de distribuição elétrica e a indústria agropecuária são alguns dos potenciais primeiros parceiros. São indústrias que não dependem da adoção de equipamentos por parte do consumidor final. Entre os mercados destinados ao consumidor final, ele menciona, por exemplo a Internet das coisas.

Para Ripley, o negócio de datacasting deve começar pequeno, mas com grande potencial de crescimento exponencial. "Ninguém imaginava o que seria a AppStore quando foi criada pela Apple. Precisamos criar logo um marketplace para poder ter noção da dimensão que este mercado terá", diz.

Vídeo

Outra aposta do uso de datacast é na transmissão de vídeo para dispositivos móveis. Ripley destaca que as operadoras móveis fizeram e fazem um trabalho formidável na transmissão para os dispositivos portáteis. No entanto, ele destaca que existem aplicações que se beneficiariam da transmissão de um para muitos. Como exemplo, cita a transmissão de vídeo em estádios esportivos, onde milhares de usuários querem acesso ao vídeo de determinada jogada ao mesmo tempo.

O ganho na qualidade de imagem prometido no padrão 3.0, apontam os executivos, deve levar algum tempo. O tempo de atualização da base de receptores deve inviabilizar transmissões em 4K ou HDR nos primeiros anos do ATSC 3.0.

Os principais executivos das redes regionais não apostam que o ganho na qualidade de imagem e áudio seja suficiente para fomentar a troca acelerada de equipamentos. Symson, da Scripps, acredita que caberá aos grupos de mídia encontrar serviços que atraiam a atenção do consumidor final. Ele menciona a possibilidade de levar mais interatividade à televisão, desta vez de forma mais eficiente ao que foi prometido no passado, com a implementação da TV digital.

Publicidade

Já o impacto no fluxo de receita com publicidade tende a levar mais tempo para os grupos de mídia, daí a importância do uso da rede para prestar serviço de transmissão de dados. Para Pat LaPlatney, presidente e Co-CEO da Gray Television, a inserção de publicidade dinâmica no conteúdo da TV – já em teste em algumas localidades – tem potencial de elevar muito o CPM (custo por milhão de audiência impactada), mas não vai ser até 2025. Ele aponta que a transmissão pelo ar da publicidade dinâmica acontecerá simultaneamente ao envio com o uso de outras redes. Symson concorda com seu par na Gray: "ATSC 3.0 é só uma das formas de fazer a inserção dinâmica. Será uma das fontes do nosso inventário, mas não exclusiva".

Ripley concorda que o impacto financeiro não será no custo prazo, mas diz que, quando chegar, será, principalmente, nas redes locais. "Acreditamos que os targeted ads serão principalmente no local. É aí que terá um aumento mais expressivo no CPM", diz.

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