FESTIVAL DE GRAMADO
20/08/2019, 23:53

"Não podemos acuar diante do que está acontecendo com nosso audiovisual", diz Mariza Leão

Teve início nesta terça-feira, 20 de agosto, a terceira edição do Gramado Film Market, ciclo de painéis, conexões e workshops voltados ao mercado que faz parte das programações do Festival de Cinema de Gramado. O painel que abriu o evento teve como tema um panorama do audiovisual entre Argentina e Brasil e contou com a participação de Paula de Luque, diretora e roteirista argentina, e Mariza Leão, fundadora da Morena Filmes.

Na ocasião, Paula refez a trajetória do setor na Argentina nos últimos anos e foi bem categórica ao criticar o atual governo e suas ações em relação a este mercado: "Estamos vivendo uma situação limítrofe. Sofremos com um governo que foi muito repressivo e que vai deixar sérias consequências para o nosso audiovisual. Estamos presenciando cortes de fundos que levamos anos para conseguir.". Nesse sentido, a diretora se referiu especialmente a uma lei, já aprovada, que esvaziará o Fundo de Desenvolvimento do cinema argentino a partir de dezembro de 2022, isto é, os recursos que os impostos que hoje nutrem esse fundo de forma direta e imediata, a partir da data estabelecida, não serão mais afetados – o INCAA, que é uma espécie de Ancine argentina – deverá alocar recursos para poder cumprir suas funções. Ou seja: pode ser que, então, ele não tenha mais os recursos necessários para cumprir a promoção da produção cinematográfica nacional atribuída por lei.

"Hoje, 10% de cada entrada de cinema vai pro INCAA. É um dinheiro que o próprio setor gera. Mas, assim como acontece no Brasil, o órgão é alvo de uma série de críticas e mentiras. Dizem que ele tira dinheiro dos aposentados, da saúde, pra colocar no cinema. O INCAA é autônomo nesse sentido. Não é dinheiro público.", explica Paula. "Nos últimos anos, os filmes de tamanho médio praticamente desapareceram. Existem filmes muito pequenos e outros dois ou três por ano que são grandes, mas porque são coproduções, com as grandes produtoras do país envolvidas. Os filmes pequenos, de baixo orçamento, não aproveitam o potencial do nosso cinema. Vemos empresas fechando e, ao final desses quatro anos de governo Macri, não sobrará quase nada – isso em relação às produtoras e, consequentemente, aos postos de trabalho que elas geram. Mais de 100 mil famílias argentinas dependem do mercado audiovisual.", completa.

Para Paula, as ações do governo fazem parte de um grande plano para oprimir a cultura da América Latina, não permitindo que o povo a reconheça. "O Brasil está começando a viver essa etapa. O que está começando a acontecer aqui, é o que presenciamos há quatro anos.", prevê.

"Bem-vindos ao futuro.". Foi com essa frase que Mariza Leão, fundadora da Morena Filmes, que participou do painel ao lado de Paula, abriu sua fala. "É essa a sensação que dá ao ouvir sobre tudo o que aconteceu e tem acontecido na Argentina. Parece que é isso que viveremos muito em breve por aqui.", disse. Para o público presente, ela contou que era parte do Comitê Gestor do Fundo Setorial e que se demitiu em 2018 por "discordar radicalmente da forma como o então ministro, Sérgio Sá Leitão, e o presidente da Ancine, Christian de Castro, estavam aprovando os recursos". Para Leão, olhando pra trás, "tudo era parte de um discurso que levaria para o momento que estamos vivendo hoje". A produtora declarou: "O que está acontecendo é uma tentativa de desqualificar, desvalorizar e desparecer com uma indústria audiovisual que é tão poderosa como a brasileira. Há interesses econômicos por trás – como se o consumo do audiovisual não fosse enorme e não desse lucros para o país.".

Na sequência, Mariza pontuou: "Há filmes que não se justificam mesmo pelo retorno financeiro que deram, é claro, mas foram eles que fizeram nossa história, fizeram com que pessoas quisessem produzir cinema, contar suas histórias. Esse discurso que estamos ouvindo, de que o modelo atual não funciona, é um mantra adoecido, que nos faz adoecer também. O setor não é ladrão, não é incompetente, não tem maus gestores e nem é incapaz de conquistar o público.".

"De Pernas Pro Ar 3"

A produtora de Mariza é a responsável por uma das franquias nacionais de maior sucesso – "De Pernas Pro Ar", protagonizada por Ingrid Guimarães – e também uma das maiores polêmicas recentes relacionadas ao cinema nacional. Isto porque o filme, que ia bem de bilheteria, saiu de cartaz repentinamente de uma série de salas por conta da estreia do blockbuster "Vingadores – Ultimato".

Sobre o episódio, ela comenta: "Nós estramos duas semanas antes de 'Vingadores' e fizemos 1,2 milhão de ingressos no período. Na terceira semana, o filme saiu de 70% das salas. Quando vi que isso estava acontecendo, acionei a Paris, nossa distribuidora, e comecei a entrar em contato com os exibidores. Nos dois dias seguintes, algumas sessões começaram a voltar, e os resultados de bilheteria nos provaram que a demanda ainda existia. Vendemos 1,9 milhão de ingressos ao todo, mas a nossa análise acreditava que ele faria 3,7 milhões, enquanto eu pessoalmente apostava em 3,2 milhões. Ou seja: essa história me deu total capacidade para dizer que não dá pra ouvirmos que temos de ser competentes, atrair capital privado e conquistar o público – como ouvimos nas reuniões que fizemos para tratar do ocorrido – se passamos por situações assim, se não podemos contar com uma cota de tela.".

O que esperar do futuro?

Quando questionada se estamos a tempo de reverter esse quadro e como devemos agir no futuro, Mariza declarou: "Acho que temos que nos mobilizar no legislativo e no judiciário com competência e com garra. Nossa interlocução tem que ser firme e profissional. É juridicamente correto cancelar editais? Temos que nos perguntar isso e, se a resposta for não, agir. Não podemos ficar acuados. Vamos ao STF, se for o caso. Não dá para a conversa ficar entre nós, com todos os agentes do setor falando sobre a gravidade da situação. Temos que ser eficientes como cidadãos, como brasileiros e como produtores do nosso audiovisual.".

Atualmente, Mariza está finalizando o longa "Depois a louca sou eu", baseado na obra de Tati Bernardi, e Paula está com "La Forma de Las Horas" na categoria de longas estrangeiros do Festival de Gramado.

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