PRODUÇÃO AUDIOVISUAL
24/01/2022, 18:49

Belli Studio quer investir em novos talentos e fortalecer a indústria da animação

A Belli Studio é a produtora de animação do Sul do país responsável por produtos como "Boris e Rufus" (foto), animação 100% brasileira que recentemente chegou ao mercado audiovisual na China, por meio de uma plataforma de streaming local. Para além do mercado asiático, o desenho é sucesso em mais de 80 países da América Latina, América do Norte e outros ao redor do mundo, com dublagens em inglês, espanhol e russo, além de contar com recursos de acessibilidade. No Brasil, a animação é exibida na TV aberta por meio da TV Cultura e nos streamings do Prime Video e SBT Videos, entre outros. No mercado internacional, "Boris e Rufus" está no Disney Channel e Prime Video. 

A série conta a história de um gato, um cachorro e um furão que pensa que é um cachorro. Quando os donos saem de casa, eles acessam as redes sociais e todos os tipos de tecnologia – reais e fantásticas – para se meter em confusão. "É um paralelo com as nossas crianças de hoje, que ainda não conseguem discernir o que é perigoso do que não é", conta Aline Belli, produtora executiva de "Boris e Rufus" e sócia da Belli Studio, em entrevista exclusiva para TELA VIVA. O desenho estreou nos canais Disney em 2018 e, depois, foi entrando em outras plataformas. O contrato de exclusividade com o grupo Disney durou três anos, para a América Latina, e depois a empresa fez outras negociações. Entre os próximos planos para a produção, está o desenvolvimento de novos episódios. "Atualmente temos 40 episódios. Este ano, entraremos no desenvolvimento de novos. E, na história, queremos mais inserção dos adolescentes, que são os donos dos animais, e em algum momento colocar o pai e a mãe, que ainda não apareceram", adianta Belli. 

Mercado internacional 

Com uma produção que está viajando o mundo, a diretora diz acreditar muito no soft power, isto é, a cultura viajando por meio das narrativas, sejam elas de cinema, TV, entre outras. "A gente põe uma pitada daquilo que a gente já viveu ou vive nas histórias. Eu entendo que seja qual for a trama, a gente tendo um material consistente, um pouco da nossa cultura sempre vai viajar junto", aponta. 

No entanto, ela ressalta: "Para o mercado internacional, tem duas coisas que são muito importantes: a qualidade daquele material e a entrega. O compromisso com a data de entrega tem que ser honrado. Por isso passamos tanto perrengue no Brasil. Nos editais, por exemplo. Se disseram que o dinheiro vai sair em determinado momento, tem que sair. Existe um compromisso nosso com aquela entrega. Temos que ter muito cuidado com isso, afinal estamos construindo uma imagem internacional. É importante cumprir com o combinado. E a recepção internacional é muito positiva em relação aos produtos brasileiros. Eles têm nos ouvido muito". 

Aline Belli é a diretora da Belli Studio

Distribuição via streaming 

"O streaming é mais uma forma de chegarmos ao público final. Lá atrás, só havia um horário específico para ver determinado desenho. Hoje em dia a geração é diferente, já conhece todas essas possibilidades", avalia. "São mais possibilidades e plataformas para chegarmos na casa das crianças. Mas à medida em que temos mais canais para fazer a coisa acontecer, maior é o desafio. O conteúdo fica espalhado, é um pouco em cada lugar. Como ter certeza que aquilo está acontecendo? Como juntar os dados todos para chegar para uma empresa de licenciamento e mostrar tudo isso? É todo um processo que ainda temos que costurar para entender", pondera. "Na pandemia, as pessoas ficaram em casa, aumentaram as visualizações dos conteúdos. Mas é uma quantidade enorme de material que tem ali. Ainda existe o desafio de comunicar que nosso conteúdo está disponível. Vamos aprendendo como funciona", acrescenta. 

Novidades em licenciados 

O licenciamento de produtos é um braço fundamental para as propriedades de animação. Nesse sentido, a novidade fica por conta dos Kits Amigurumi – Boris e Rufus, recém-lançados pela Círculo S/A. Os kits ensinam como confeccionar os principais personagens da série com a técnica artesanal e já contêm todos os itens necessários para a execução de cada boneco. Os kits são vendidos separados para cada personagem em armarinhos de todo o Brasil. Os kits amigurumi também são os primeiros lançamentos da linha de licenciamentos Boris e Rufus em 2022. 

O Kit Amigurumi é a novidade entre os licenciamentos de "Boris e Rufus"

Investimento em novos talentos 

Belli menciona a grande dificuldade que a área de animação tem de desenvolver e reter novos talentos. "Já era difícil antes e ficou ainda mais na pandemia. É uma indústria que está em formação, há desafios por todos os lados. Desenvolver talentos sem poder estar com eles fisicamente lado a lado é muito complicado", afirma. Foi por isso que, em 2020, a produtora parou o programa de trainee, por exemplo. "Não estávamos conseguindo fazer isso à distância. No presencial, a troca acontece o tempo todo. Os talentos davam um salto muito grande depois desse período de treino. De casa, não funcionou. Estamos retornando agora em 2022, presencialmente. Reorganizamos o estúdio, a distribuição das mesas, olhamos para todo o espaço com mais cuidado. Torço para que agora dê para fazer", conta. 

No final de 2021, a Belli studio abriu novas vagas para o programa de trainee. Foram convocadas pessoas de 18 a 25 anos que tivessem alguma noção de desenho e se interessassem pela área. Então, elas participaram de um curso de imersão gratuito de uma semana. "Mapeamos os perfis e entendemos as pessoas no dia a dia. Foi um processo muito positivo, uma espécie de pré-seleção. Fechamos contratos com oito trainees, que vão atuar com a gente em uma animação que está na casa. Eles terão retorno dos supervisores de animação. O maior desafio é fazer com que eles se desenvolvam como artista, ao mesmo tempo que entendem o software. Um equilíbrio entre as duas coisas", conta. 

O estúdio possui uma forte preocupação em investir em novos talentos e na cadeia criativa da animação. "Muitos profissionais daqui trabalham remotamente para outros países e, na pandemia, vimos isso acontecer ainda mais. Por isso precisamos estar sempre desenvolvendo pessoas, além de desenvolver mais a indústria como um todo para retermos esses talentos. Queremos pagar melhor, promover as pessoas, ter retorno do nosso trabalho. Isso é uma cadeia. A gente olha para o audiovisual separado das outras áreas, mas temos que entender que tudo faz parte da economia criativa. As próprias empresas brasileiras ainda têm dificuldade de enxergar assim. A indústria de fora é mais madura nesse sentido", reflete Aline Belli. Ela detalha: "Nas produções internacionais, existe todo um marketing antecipado, uma comunicação que já chama a atenção do público. Além do licenciamento. Você sai do cinema e já encontra os produtos à venda. No Brasil, ainda estamos muito focados em levantar o dinheiro da produção. Existe uma maior dificuldade em fazer esse investimento acontecer em marketing e comunicação. Seria um caminho pra gente chegar com mais força para poder gerar esse entorno, fazer o ciclo acontecer". 

A animação nacional "Boris e Rufus" está disponível em mais de 80 países

Projetos inovadores 

A Belli é muito ligada a questões relacionadas à educação. Nesse sentido, dois projetos se destacam: o "Alô Professor" e o "Desta Escola Para o Mundo". 

"Em 'Boris e Rufus', trabalhamos essa questão da segurança na informação, para que as crianças tenham cuidado no ambiente da internet. No projeto 'Alô Professor', pegamos quatro episódios especiais e os decupamos para os professores trabalharem com eles em sala de aula. A ideia é fazer as crianças pensarem e entenderem os riscos e perigosos, aprendendo a identificá-los. Fizemos esse trabalho com nossos roteiristas, com acompanhamento, para esse aprendizado ser passado de forma natural. O projeto será lançado para as escolas, com manual para os professores. O objetivo é trazer as crianças para a discussão", discorre a diretora. 

O outro projeto, "Desta Escola Para o Mundo", consiste em levar animadores que trabalharam nas séries da produtora de volta para as escolas onde eles estudaram, para apresentá-los aos alunos. "Nas escolas, fazemos uma palestra e contamos como se produz uma série de animação. A ideia é inspirar a criança a olhar para esse mercado, se desenvolver como artista. Aí, no final, perguntamos onde eles achavam que a gente contratava pessoas para trabalhar numa animação que fosse passar na TV. Eles falam 'nos Estados Unidos', 'no Canadá'. E aí contamos que produzimos em Blumenau mesmo, no interior de Santa Catarina, e apresentamos o animador, que trabalhou na série e estudou naquela escola. Queremos mostrar que podemos trabalhar com animação daqui e ver nosso trabalho indo para o mundo todo", conclui. 

Planos para 2022 

Atualmente, a Belli Studio trabalha em "Livraria Berg", um projeto em parceria com a Latina Produtora e o Maun Studio que já foi premiado no Ventana Sur. A produtora fará a direção e animação e, no momento, está desenvolvendo o teaser da série e buscando uma primeira janela para exibição. 

Além disso, eles trabalham também em sua primeira série de animação adulta, "A Garra do Crime", baseada em uma história de quadrinhos sobre um vilão que surgiu em São Paulo nos anos 30. A ideia é fazer o pitching do projeto para o mercado internacional a partir do segundo semestre.

Por fim, a produtora destaca ainda "SOS Planeta Água", produção criada por Marcela Catunda (de "O Show da Luna!", "Peixonauta"). A captação para o projeto foi levantada em 2021 e, neste ano, a ideia é produzir. A série fala sobre a limpeza dos oceanos e o cuidado que precisamos ter com a água do planeta. O teaser já está disponível no canal da Belli Studio no YouTube

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